Lisboa já tem um mapa de arquitetura para contar a história da cidade

Maria Melo abre o Mapa de Arquitetura de Lisboa (Filipe Amorim / Global Imagens)

Maria Melo gosta de mapas quase tanto quanto gosta de arquitetura (e de jardins). Quando viaja, usa e volta a usar mapas, onde deixa anotações, bolinhas, memórias da passagem pelos locais. Não foi por isso difícil à livreira e editora da A+A, a livraria especializada em arquitetura, perceber a falta que fazia um mapa da arquitetura de Lisboa. E, claro, se bem pensou, melhor o fez.

Texto de Marina Almeida

De um lado, Lisboa desdobrável com bolinhas pretas numeradas de 1 a 170, e as respetivas legendas. Do outro, o bê-à-bá da arquitetura moderna e contemporânea da cidade, com informação sobre as datas dos projetos e a equipa projetista. O Mapa de Arquitetura de Lisboa já anda de mão em mão, a mostrar o património da cidade a nacionais e turistas. Porque o ecrã do telemóvel não nos devolve tudo.

Pelo menos é essa a convicção de Maria Melo, a livreira e editora da A+A. Mulher de armas e ideias abundantes luta há 24 anos por divulgar o património arquitetónico português. Sentamo-nos no bar da Ordem dos Arquitetos, edifício na Travessa do Carvalho, em Lisboa, onde se localiza a A+A, livraria e editora especializadas em arquitetura. Maria é uma fã de mapas, que usa, assinala, faz bolinhas nos locais onde almoçou ou foi feliz. E com esta onda turística da capital, lembrou-se que não havia um mapa da arquitetura. “Percebemos que este é o momento para fazer um mapa. Isto tem a ver com a vida das pessoas. As coisas estão tão a mudar, estão tão diferentes do que eram há 20 anos, que têm de ser adaptadas a isso mesmo.” E nasceu o mapa, um Mapa da Arquitetura de Lisboa, com os 170 edifícios assinalados – e também as duas pontes sobre o Rio Tejo.

Parece uma anacronia, mas não é. “Isto dá uma ideia da cidade mais criteriosa. Senta-se num café, abre o mapa, começa a ver a geografia da cidade: onde está o rio, as manchas verdes, o centro histórico. Ter esta noção que nos telemóveis é rápida mas diminuta, quando abro aquilo para saber onde é a rua, perco o resto. Aqui está tudo afixado”, diz. É importante a noção de território: “nós perdemos um bocadinho a ideia de perspetiva com os telemóveis, toda a gente sabe para onde vai mas não vê o caminho e a mim aflige-me muito os jovens não olharem para a estrada onde vão“, acentua.

A edição é bilingue – como tudo o que a editora faz – e muitos turistas já o procuram. Alguns contam-lhe que também partilham este ritual de desdobrar os locais de papel e assinalar a passagem, como a memória vivida dos locais.

O Mapa da Arquitetura de Lisboa tem 170 edifícios assinalados, e uma breve explicação (Filipe Amorim/Global Imagens)
(Filipe Amorim / Global Imagens)

O mapa pode funcionar como complemento ao Guia de Arquitetura de Lisboa 1949-2013, que está esgotadíssimo. “A primeira edição vendeu 2500 exemplares, era até 2013, queríamos fazer até 2019, já atualizado, porque houve coisas que desapareceram, outras que estavam como objetos de futuro e já foram feitos, como a sede da EDP dos Aires Mateus”. Maria Melo procura agora um parceiro para a nova edição, depois da Fundação EDP lhe ter comunicado o fim do patrocínio.

“Fui sempre andando até perceber que a arquitetura portuguesa não estava lá fora. Os livros eram todos em português, ninguém comprava, e comecei a matutar, ‘se calhar era melhor abrir uma editora, mas bilingue, para exportar o que nós temos de bom, os arquitetos e a arquitetura’.

Militante da arquitetura, Maria Melo já foi hospedeira da TAP, trabalhou numa galeria de arte e nos jornais, antes de ter lançado a livraria. Não, nunca pensou em ser arquiteta. “Acho mais engraçado ser o que sou. A arquitetura é uma disciplina ligada às artes, que me sensibiliza. Quando olho para um edifício, para um pormenor, até me arrepio”. Sorri. Aos 68 anos diz que tem “sangue serrano” e atira-se às dificuldades com voracidade. Transporta em si uma espécie de loucura com que fez nascer uma livraria especializada em arquitetura e, depois (em 2009), uma editora. “Fui sempre andando até perceber que a arquitetura portuguesa não estava lá fora. Os livros eram todos em português, ninguém comprava, e comecei a matutar, ‘se calhar era melhor abrir uma editora, mas bilingue, para exportar o que nós temos de bom, os arquitetos e a arquitetura’. Lancei em 2009 a editora com uma monografia do Ricardo Bak Gordon. Comecei por um jovem em vez de começar pelos grandes nomes. Deu-me muito gozo. Foi assim que nós nos lançámos”, conta.

Hoje a editora A+A tem livros em todo o mundo, levando a arquitetura portuguesa a paragens distantes. “No outro dia chegou aqui um [arquiteto] que disse que os nossos livros estavam no Japão, numa montra. Fiquei toda contente, claro”. Mais livros tivesse, mais livros vendia, uma conta não é só de somar: “isto é muito bom, mas uma distribuidora leva-nos 60% do livro. O que significa que se tiver um livro de 30 euros, eu fico com 12 euros. 12 euros é praticamente o custo dele, de produção. Eu ando sempre com uma mão à frente, por isso é que eu vivo de mecenato. Estou sempre na estrada a pedir dinheiro mas não quero desistir disto”.

Viagens a la carte

Ideias não lhe faltam e chegam de todos os lados, até porque Maria Melo, que trata os arquitetos por tu, diz que não faz nada sozinha. “Tenho estrangeiros que vem aqui de propósito comprar as nossas edições. Tenho aqui arquitetos estrangeiros, de renome internacional, que vem incógnitos. Aliás foi por causa de um deles que me veio a ideia de fazer um guia de arquitetura dos arquitetos portugueses”. Entrou na loja e pediu-lhe um guia da obra do Siza Vieira porque estava com a família, tinha alugado uma carrinha, e iam percorrer Portugal de Norte a Sul para conhecer as obras do primeiro Pritzker português. “Eu disse-lhe não há, mas eu vou fazer!”. E fez. Um ano depois saiu o guia dedicado a Siza Vieira (vai na terceira edição), mais tarde o de Souto Moura e, mais recentemente, Carrilho da Graça (edições apoiadas pela Fundação Millennium BCP, com fotografia de Nuno Cera).

Em paralelo com a livraria e a editora, a A+A organiza viagens de arquitetura a la carte, que permitem compensar a quebra de vendas. “Fiz uma giríssima ao Alentejo. Estive cinco dias com estudantes da Universidade de Lovaina, na Bélgica. A propósito da ideia de paisagem, convidei os arquitetos para irem ao espaço que eles fizeram e dar uma aula. A casa de Alqueva com o Manuel Aires Mateus, o Carrilho da Graça no Mosteiro Flor da Rosa (Crato), o Eduardo Souto Moura mandou o João Pedro Falcão de Campos ao Barrocal, a Inês Lobo não pôde ir à Fábrica dos Leões, foi o seu sócio João Maria Trindade que fez uma coisa espetacular”, conta. Foi a terceira vez que Maria Melo ganhou o concurso da universidade belga para organizar estas viagens para estudantes de arquitetura, que tanto gozo lhe dão preparar. Agora vai dedicar-se a pesquisar a zona centro do País, para futuros projetos. Mais uma vez, só quer fazer coisas em Portugal, porque há tanto por conhecer. Imparável, garante que até um casamento é capaz de organizar e ligá-lo à arquitetura…

Que falta faz um livro?

Voltamos ao Mapa da Arquitetura de Lisboa, que se revelou insuficiente para esta viagem que fazíamos no bar da Ordem dos Arquitetos. Não por falta de opções: são 170 os locais escolhidos por Maria Melo e Michel Toussaint, o arquiteto consultor científico do projeto, que assina um texto de enquadramento no mapa. Do Liceu Passos Manuel à Sede da Vodafone, passando pelo Terminal de Cruzeiros ou o Teatro LU.CA. Está à venda nas livrarias (A+A incluída, evidentemente) e no Turismo de Lisboa. Custa dez euros. A editora quer agora lançar o Mapa da Arquitetura do Porto.

“Nós não temos cá uma cultura da arquitetura, não temos cultura de património e preocupa-me imenso os mais novos. Há um vazio que eu sinto muito grande, de estudantes de Arquitetura que não vem aqui, deixaram de vir. Antes havia filas…”. As novas gerações terão substituído os livros pelas consultas na internet. No caso dos mapas, tira-lhes a noção de perspetiva. E o que se perde sem livros?

“Estes jovens vão chegar ao fim dos cursos com uma limitação cultural muito grande, não percebem ou não lhes é transmitido isso, a importância do livro, de uma cultura mais abrangente. Como diz o Siza, eu não me deito sem ler poesia. Poesia, romance. Estas coisas são importantes para um arquiteto! O Siza gosta imenso de poesia, aliás ele é um poeta, mas essa sensibilidade não vem só dele, vem daquilo que ele apreende”.

Maria Melo fundou a A+A há 24 anos (Filipe Amorim / Global Imagens)