As novas galerias de arte de Lisboa

São as mais recentes galerias de arte em Lisboa. Instalaram-se na cidade com obras de latitudes diversas. Vieram porque a capital portuguesa se tornou atrativa, graças aos seus novos inquilinos estrangeiros, com poder de compra e à dinâmica alavancada pela ARCO Lisboa e Just Lx. Também porque há mais portugueses a colecionar. Um brasileiro, um lusodescendente, uma galeria parisiense e um grupo de amigos portugueses, a arte contemporânea ganha novos palcos e novos respigadores. Há para vários gostos e bolsas.

Texto de Marina Almeida

À conversa com o tempo

A Galeria Jeanne Bucher Jaeger instalou-se no Chiado em janeiro como quem chega a casa. Ou como quem tem neste espaço de 160 metros quadrados, com janelas generosas e tectos abobadados, uma acolhedora assoalhada da galeria parisiense fundada em 1925. A ligação da galeria com Portugal é agora de tijolo e betão. Começou com a ligação entre Vieira da Silva e pela fundadora, Jeanne Bucher: Foi desde sempre a galeria da artista portuguesa em França – em cujo espaço conviveu com nomes como Picasso, Max Ernst, Mondrian, Giacometti ou Kandinsky. Então e agora apostada em mostrar artistas contemporâneos de quem a dirige, a galeria francesa passou a ter, desde 2008, dois espaços em Paris: ao de Saint Germain, onde está desde 1960, juntou-se outro no Marais, dedicado à arte contemporânea. Aqui se fez nova ligação com Portugal, com trabalhos de artistas como [Michel] Biberstein (1948-2013), com o Rui Moreira [Porto, 1971], depois o Miguel Branco (Castelo Branco, 1963).

«Começámos por mostrar alguns artistas portugueses de quem apreciávamos o trabalho, como o Michael Biberstein, que embora fosse suíço e norte americano nós considerávamo-lo português porque ele vivia cá», diz Rui Freire, sócio gerente da galeria. São precisamente obras «bastante raras» de Biberstein que atualmente preenchem as paredes do espaço da Rua Serpa Pinto.

A galeria lisboeta surge quando se começaram a aperceber de que Lisboa ganhara uma nova centralidade: «Há uns quatro anos começámos a ser surpreendidos por alguns colecionadores nossos que nos pediam para entregar as obras aqui em Lisboa. E percebemos que havia um fluxo de pessoas, que muita gente de França se movimentava para Lisboa. Começámos a ficar mais atentos a essa realidade», conta Rui Freire.

Galeria Jeanne Bucher Jaeger
Rua Serpa Pinto nº 1, 1200-442 Lisboa
Glider, Michel Biberstein
jeannebucherjaeger.com

 

Do Brasil, com uma missão
Durante três décadas Rudolfo Guerra foi cirurgião geral. Mas quem o oiça agora, sentado na cadeira da pequena esplanada ao ar livre que funciona como antecâmara da galeria Primner, não suspeita da metade da vida passada no bloco operatório, entre o corpo humano e o material cirúrgico. Rudolfo senta-se à conversa como quem fala com os amigos.
Rudolfo veio com a mulher, Andrea – que se escusa a aparecer nas fotos mas acaba por se juntar ao final da conversa. Vivem na Expo, suficientemente longe e perto dos filhos (um deles, Pedro, gere a galeria, Bárbara a loja) – «queremos que os filhos vão assumindo as coisas», diz o pai Rudolfo. Os Guerra mudaram-se para Portugal, como muitos brasileiros, à procura de estabilidade e segurança. Deixaram para trás um país em convulsão – «há certos momentos em que tem de passar a coisa a limpo, não é? É preciso acontecer. Inauguraram a Primner (significa Primavera energética) a 10 de maio. Estão num beco atrás da Casa dos Bicos, numa Alfama que muda de mãos num afã sonoro de obras que faz de pano de fundo à conversa.

Também a galeria está no piso térreo de um prédio de habitação totalmente remodelado. Preenchem-na com obras, essencialmente escultura, de um artista brasileiro, tal como eles, oriundo de Minas Gerais. Querem que Lisboa seja a porta de entrada de Amílcar de Castro (1920-2002) na Europa – «é um artista com um potencial muito grande que ainda não foi reconhecido», confia o cirurgião galerista. A Primner fez uma parceria com a fundação Amílcar de Castro: «somos a representação dele para a Europa e queremos estender para a Ásia e Estados Unidos. Dentro do Brasil já tem um mercado próprio.» Amílcar de Castro é o representante de uma fase da arte brasileira muito importante «o concretismo e do neo concretismo» e elegeu o aço como material principal, enquadra.

Galeria Primner
Pátio Afonso de Albuquerque 1D, 1100-070 Lisboa
A Poesia dos Gestos Espontâneos, Amílcar de Castro
www.primner.com

 

A curadoria dos amigos

João e Nuno são amigos e, com mais dois amigos, abriram uma galeria de arte em Lisboa, a Ainori. «Ironia escrita ao contrário e a ideia é transmitir a ironia nas obras de arte», diz João Gavinhos, advogado, apaixonado por arte, colecionador e um dos sócios. Instalaram-se em Alcântara a 7 de abril com uma exposição com curadoria de Nuno Sacramento. Procuram artistas jovens com carreira sólida, entre os 30 e os 40 anos. Querem proporcionar aos novos colecionadores que surgem – que se perfilam na mesma faixa etária – bons negócios. «Hoje em dia há muita gente a pintar mas há poucos artistas, é preciso escolher bem para que a Ainori também credebilize junto dos públicos, para se perceber que o que se passa aqui é muito depurado, muito escolhido, muito pensado. Queremos que as pessoas acreditem que estão a fazer um bom investimento em arte contemporânea», diz Nuno Sacramento.
Dos poucos meses de portas abertas, conseguem já traçar um perfil de compradores: portugueses, jovens. Há mais portugueses a colecionar arte, fruto de uma conjuntura económica mais saudável. Na perspetiva da Ainori, os estrangeiros veem, apreciam, gostam mas não compram – nada que os preocupe.

«O mercado da arte está novamente a ressurgir. Há oito, dez anos caiu, fecharam muitas galerias mas neste momento estão a abrir novos espaços, as pessoas começaram a reaparecer nas galerias, a ArcoLisboa e a Just Lx trazem uma nova dinâmica e criam hábitos culturais. O que faz falta é criar hábitos culturais, é haver filas à porta de um museu, é haver uma galeria de arte cheia de gente», sonha o curador da exposição.
«As pessoas com a internet estão mais conhecedoras e rapidamente sabem o histórico de um autor. As pessoas querem comprar para decorar e simultaneamente querem fazer um investimento. Algo que lhes dê prazer ter em casa mas que amanhã valorize», diz Nuno Sacramento, admitindo que as escolhas da Ainori refletem muito os gostos dos quatro amigos. «A linguagem tem muito a ver com o gosto dos proprietários, temos o que gostamos e vender o que gostamos é muito mais fácil.»
Galeria Ainori
Rua das Fontaínhas 70A, Alcântara
www.ainori.pt

 

É uma galeria luso-francesa, concerteza

Entramos na galeria de Maxime Porto como quem entra numa casa popular, no Beato, o bairro que se agora espreguiça aos olhos da cidade. O jovem lusodescendente de 28 anos abre a porta da rua e juntos cruzamos o pátio de uma vizinha antes de entrar no portão da Ibirapi. Ali o ambiente é luminoso e, naquela tarde, dominado por um políptico do autor português António Faria. Escutamos o sotaque aveludado de Maxime Porto, com Portugal e França misturados em cada palavra, polvilhados com tempero do Brasil. Afinal ele nasceu em Orleães, França, filho de pais portugueses (naturais de Caminha), estudou História da Arte na Universidade de Tours, fez um ano de Erasmus em Coimbra («aí é que desenvolvi a língua portuguesa porque nem com os meus pais falava português»). Seguiu para a École du Louvre, onde fez um mestrado em mercado da arte. Entrou no mundo da arte pelos leilões (trabalhou na Tajan e na Sotheby’s), passou por galerias de arte contemporânea e por museus, como Louvre e o Museu de Arte do Rio de Janeiro – «aí peguei um pouco o sotaque brasileiro por isso é que o meu português é um pouco um iogurte» – ri-se.

Abriu a Ibirapi para promover o trabalho de jovens artistas «que ainda não estão inseridos no mercado e que têm um trabalho fantástico que precisa de ser visto pelo mundo». Mas Maxime também quer trazer a Lisboa artistas mais estabelecidos, portugueses e internacionais. Como a baiana Nádia Taquary, que faz escultura e tem um trabalho que se liga com a joalharia portuguesa (previsto para 2019); Ou o pintor paulista António Hélio Cabral, com trabalho «sobre lendas, mitos e histórias das nossas culturas, que ele reinventa através da pintura» (setembro).

A galeria não é grande e aproveita um efervescente dinamismo de Lisboa, também no mundo da arte. «Achei que era um bom momento para abrir o meu próprio business e sempre sonhei com Lisboa porque é uma cidade bastante dinâmica, porque tem cada vez mais investidores, mais turismo.

Galeria Ibirapi Contemporânea
Calçada Duque de Lafões, 74 Porta 2
1950-102 Lisboa
ibirapi.com