Jovens, designers e mestres artesãos juntos para salvar a cestaria portuguesa

Em setembro, o Museu de Arte Popular vai apresentar uma grande exposição de cestaria tradicional portuguesa (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Primeira edição do Summer School está a decorrer em Lisboa até 2 de agosto. Dez jovens portugueses e estrangeiros estão a aprender técnicas de cestaria em vias de extinção e desenvolver peças contemporâneas. O resultado pode ser depois visto numa grande exposição no Museu de Arte Popular.

Texto de Marina Almeida

Em setembro do ano passado, Manuel Ferreira embalou alguns bancos de bunho e mandou-os para o porão do avião que o levaria a Veneza. Durante uma semana, trocou a oficina em Santarém pelos holofotes da Homo Faber, na ilha de San Giorgio Maggiore. O cesteiro foi mostrar à Europa que arte é esta do bunho – uma planta esponjosa que ocorre junto a cursos de água e que, devidamente cortada e trabalhada, se transforma em peças de mobiliário ou cestaria. Esteve na feira de artes e ofícios de excelência a fazer bancos e cadeiras de bunho perante o olhar ora curioso ora incrédulo de quem visitava a sala Best of Europe.

O artesão de Santarém é um dos mestres que vai passar os conhecimentos aos jovens estudantes que, durante três semanas, vão estar no Museu de Arte Popular (MAP), em Lisboa, a aprender e a criar novas peças. Os outros são Isabel Martins (baracejo), Ana Paula Abrunhosa (junça), Vanessa Florido (palma) e Fernando Pereira (vime). O Summer Camp de cestaria, promovido pela Fundação Michelangelo e pelo Ministério da Cultura, vai juntar dez jovens estudantes de design e arquitetura de seis nacionalidades: cinco portugueses, e cinco internacionais – França, Bélgica, Chipre, Polónia e Itália.

O Summer Camp, que conta ainda com a participação da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva (FRESS), da associação Passa ao Futuro e da Home Project Design Studio. Debruça-se sobre cinco técnicas de cestaria – bunho, junça, baracejo, palma e vime -, um ofício ameaçado de extinção.

Manuel Ferreira é o último cesteiro de bunho em Portugal ( Gustavo Bom / Global Imagens )

Este é um dos sete Summer Camp que a Fundação Michelangelo (instituição sediada na Suíça que se dedica à identificação e preservação dos métiers d’art da Europa, e que também promoveu a Homo Faber) promove, pela primeira vez este ano, em quatro países europeus. Nicole Segundo, representante em Portugal daquela instituição, revela que a cestaria foi a arte escolhida em diálogo com o Ministério da Cultura – que quer relançar o Museu de Arte Popular em setembro com uma grande exposição, Um Cento de Cestos.

Em maio, na apresentação da iniciativa, a ministra Graça Fonseca disse que se estima que em Portugal a idade média dos cesteiros ande à volta dos 70 anos. “Estamos com um saber fazer bastante envelhecido e existem evidentes problemas para os que ainda têm oficinas em conseguir atrair aprendizes, novos a quem passar o conhecimento, e também têm dificuldade de acesso ao mercado internacional e no fundo na valorização da sua arte e do seu produto”, acentuou a Ministra da Cultura. Na altura, salientou a importância de recuperar o saber fazer português e do trabalho que há a fazer nesse sentido a nível da educação, com o envolvimento de escolas e centros profissionais. Graça Fonseca destacou também a importância da promoção destes produtos, e do seu posicionamento no mercado do luxo.

A iniciativa é financiada pelo Ministério da Cultura, através da DGPC, com a participação da Michelangelo Foundation, nomeadamente através do pagamento das viagens dos participantes (artesãos e formandos) nacionais e estrangeiros, disse ao DN fonte do gabinete da ministra da Cultura.

A Ministra da Cultura, Graça Fonseca, sublinha a aposta nos ofícios tradicionais portugueses (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens) (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Os outros Summer Camp promovidos pela fundação suíça versam ofícios tradicionais como a tapeçaria ou vidro soprado e decorrem em França e Inglaterra. O concurso decorreu a nível europeu: a Fundação Michelangelo recebeu 200 candidaturas e selecionou 50 jovens. A oficina portuguesa foi a que mais candidaturas recebeu, revela Nicole Segundo. “O Summer Camp de cestaria foi o que teve mais candidaturas. Os outros temas também são muito interessantes, o que mostra o interesse dos estudantes, mesmo a nível internacional, na cestaria”, diz, referindo que os jovens “são todos oriundos de escolas de renome”, em Portugal e no estrangeiro e que o processo de seleção foi “complicadíssimo”: para além do portfólio, o júri teve em conta as cartas de motivação que escreveram.

Nicole Segundo da Fundação Michelangelo: o summer camp de Lisboa é um dos sete que a instituição suíça promove este verão na Europa (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

“Os dez jovens vão trabalhar com cinco mestres artesãos que vão ser guiados por quatro mentores de design e um líder. Estes conhecimentos multitransversais, multiculturais e interdisciplinares que vão criar objetos únicos e originais que saem do âmbito tradicional do cesto enquanto objeto”, diz Nicole Segundo, referindo que mais do que preservar as técnicas ancestrais é, também, importante que estas evoluam para novas linguagens. “Temos de dar um novo sopro de vida a este ofício”, sublinhou.

Durante o Summer Camp de cestaria o Museu de Arte Popular vai estar aberto ao público com diversas iniciativas a decorrer relacionadas com a tecnologia de cestaria portuguesa (exposição, workshops para crianças, projeção de filmes). A 23 de julho serão mostrados os primeiros resultados deste trabalho conjunto de artesãos e designers. Em setembro, a exposição Um Cento de Cestos vai mostrar a cestaria tradicional portuguesa, revelando as peças em reserva no Museu Nacional de Etnologia.


 

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