Joias e (outra) arte em diálogo na Gulbenkian

Peças da Coleção Moderna do museu Gulbenkian em diálogo com a joalharia ( Álvaro Isidoro / Global Imagens )

A joalharia contemporânea ainda não tinha sido estudada, muito menos posta a falar com obras de arte. Cristina Filipe finalizou a sua tese de doutoramento, está a preparar um livro e pôs obras da coleção Moderna da Gulbenkian em diálogo com joias – algumas bem desafiantes. Para ver até 16 de setembro.

Texto de Marina Almeida

Cristina Filipe defendeu a tese de doutoramento sobre joalharia contemporânea na Universidade Católica do Porto. Um trabalho pioneiro, que em breve será publicado em livro, e que a levou a fazer uma incursão profunda no mundo da joalharia e da arte. Uma parte do caminho que acabou por desenvolver na exposição que preenche o convidado de verão da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Exposição Convidado de Verão desenvolve-se ao longo da Coleção Moderna ( Álvaro Isidoro / Global Imagens )

“Consegui reunir várias épocas, vários artistas, artistas que inclusive fizeram joias, e foi uma enorme descoberta pôr o trabalho em contexto com a coleção moderna”, diz, enquanto avançamos pela enorme mesa-expositor. “Comecei por pensar em artistas representados na Coleção Gulbenkian que fizeram joias, e há vários. Depois fui tentando encontrar afinidades entre joalharia e a coleção, tentei perceber onde é que os artistas se encontravam além da peça”, explica.

Ali encontram-se peças de joalharia de artistas que nunca foram expostas. Estas joias “são peças únicas que foram feitas na intimidade, nunca foram expostas”. Caso de Jorge Vieira, “um dos primeiros artistas em Portugal a fazer joias”: na vitrina estão um pendente de ardósia e uma cabeça de prata, salienta a curadora.

A curadora e investigadora Cristina Filipe ( Álvaro Isidoro / Global Imagens )

Entre os “grandes pioneiros” Cristina Filipe destaca Alberto Gordillo. O artista, natural de Moura (onde há um museu com a sua obra) está representado por uma gola “icónica”: “É a primeira de 1958, ele fazia as golas em latão à martelada, são peças manifesto. Gordillo aprendeu com um tio ourives e revoltou-se imenso com os ourives que viviam numa miséria enorme e estavam ali a aproduzir medalhas de ouro, havia um contraste enorme entre o que faziam e viviam”. No entanto, as peças acabaram por ser rejeitadas pelo tio e pelos joalheiros. Gordillo “começou a ir para a Brasileira, a juntar-se aquele grupo das vanguardas dos anos 60. Era muito amigo do Herberto Helder, do João Vieira, e começou a querer dar à joalharia o estatuto de obra de arte. E eu relacionei-o com Paula Rego, com o quadro Salazar a Vomitar a Pátria, que na mesma altura também foi rejeitado pelo salão de arte”, refere Cristina Filipe.

A gola manifesto de Gordillo ( Álvaro Isidoro / Global Imagens )

Nestes diálogos de artes, estão obras de 65 autores. A exposição, patente até 16 de setembro no Museu Gulbenkian, permite percorrer um arco temporal entre 1959 e 2018 e perceber as mudanças na joalharia em Portugal, acompanhando as artes plásticas. Cristina Filipe é investigadora do CITAR – Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes da Universidade Católica, e artista.

As peças expostas são na sua maioria dos próprios artistas, algumas de colecionadores, outras de museus. Entre outras conversas, as colagens de Ana Hatherly feitas com os cartazes das ruas de Lisboa no 25 de Abril de 1974 e o pendente cravo que José Aurélio fez para a filha, nascida nesse ano.

O pendente cravo que José Aurélio fez para a filha ( Álvaro Isidoro / Global Imagens )