Pneu com lã de Arraiolos de €1000. Designer português cria peças únicas

Deixou as letras para se dedicar às lãs. De jornalista a artesão, João Bruno Videira é hoje um nome reconhecido no design nacional e não só. São peças únicas aquelas que saem das mãos do designer que reinventou o uso da lã de Arraiolos, numa fusão entre artesanato, reciclagem e design exclusivo.

Texto de Patrícia Tadeia

Tudo começou há 12 anos, quando resolveu abandonar o jornalismo. «Tinha 32 anos, vivia num sítio idílico no Alentejo, numa aldeia chamada Nossa Senhora da Graça do Divor, numa casa paroquial, um espaço do séc. XVI, que acredito ter sido o motor de uma transformação interna em mim. E foi esse contexto contemplativo que deu expressão àquilo que obviamente eu já tinha em mim, sem saber», recorda João.

«Aquilo» era a arte de criar peças exclusivas, recuperando outras que ia encontrando. E a primeira peça do designer português, que já expôs no Reino Unido e Itália, nasceu de uma brincadeira. «Um dia um amigo deu-me uma cadeira para as mãos, uma cadeira alentejana de palha com o assento roto, e disse-me ‘Eu sei que vais fazer alguma coisa com ela». E assim foi. Desmanchei o assento e deixei apenas a estrutura de madeira. Pintei-a, arranjei-a. Tinha lãs em casa, porque a minha mãe tinha como grande paixão fazer tapetes de Arraiolos, e decidi usá-las. Usei a cadeira como se fosse a base de um tear e em poucas horas estava feita. Foi a primeira peça. E foi a certeza de um momento em que percebi que poderia fazer alguma coisa com aquela ideia», admite o ex-jornalista nascido em Tomar.

Essa peça continua na casa do amigo, mas outras foram surgindo. «Queria incentivar as pessoas a que reutilizassem o que têm em casa. Dar uma nova vida aos objetos. Sempre me fez muita confusão o lixo que produzimos, somos produtores massivos de lixo», admite.

E assim nasceu uma das peças que está em exposição na nova ala da QuartoSala – Home Culture, empresa de Design de interiores e decoração, em Paço de Arcos: «Um dia encontrei no lixo um pequeno tesouro. Era uma cadeira tipicamente portuguesa, com armação em ferro. Recolhi-a e transformei-a. Revesti-a com lã e assim nascia a Cadeira Évora.»

«Queria incentivar as pessoas a que reutilizassem o que têm em casa. Dar uma nova vida aos objetos. Sempre me fez muita confusão o lixo que produzimos, somos produtores massivos de lixo.»

Nos 12 anos que passaram desde o lançamento da marca, João já criou centenas de peças. Depois de uma pequeno hiato – em 2010 viu-se obrigado a deixar a arte para segundo plano – regressou em grande em 2015. Elaborou um plano de ação que passava pela criação de uma grande exposição individual, uma espécie de relançamento artístico. E assim foi. A mostra que decorreu em Tomar, Campo Maior e Évora trouxe João de volta à ação a tempo inteiro. E acabou por conduzir o designer português ao London Design Festival, em setembro do ano passado. «A recetividade foi excelente, é um mundo, vários contactos nasceram ali, foi uma experiência muito gratificante», recorda o designer que tem atualmente um espaço de divulgação do seu trabalho na QuartoSala – Home Culture, onde coabita com grandes marcas internacionais a nível de mobiliário. E onde é aliás o único representante nacional.

Únicas são também as peças. «Raramente as repito. Já aconteceu clientes que me pediram duas cadeiras iguais ou dois bancos iguais. Faço-os, mas há sempre um pequeno pormenor que torna a peça diferente. Por norma, sobretudo pela palete de cores e conjugação das mesmas, as peças nunca são iguais», explica.

Cada processo criativo pode levar até quatro semanas, como foi o caso do Dodecaedro, que João confessa ser a sua peça preferida atualmente. «É uma escultura de lã que fiz para a exposição Geometria dos Sentidos, demorou um mês, todos os dias a fazer cordas de lã em doze pentágonos, num esforço físico considerável. Mas o resultado final compensa tudo», conclui João.