Irmãos Aires Mateus: Arquitetura a quatro mãos

Os irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus são uma das duplas mais reconhecidas do mundo da arquitetura. Em Portugal e no estrangeiro. Projetam, ensinam e refletem em conjunto há mais de trinta anos. Os resultados estão à vista de todos.

Texto de Filipe Gil | Fotografias de Orlando Almeida/Global Imagens

A arquitetura chegou cedo na vida de Manuel e Francisco, sobretudo pelo ambiente que viveram em casa. Pelo pai, arquiteto, mas principalmente por influência da mãe, de Belas-Artes, que os «arrastava» para espetáculos de ballet e para ver filmes do dinamarquês Carl Dreyer.

Os amigos da casa ligados ao mundo artístico fizeram o resto do trabalho. E hoje podemos ver o resultado em edifícios como a nova sede da EDP em Lisboa, a Faculdade de Tournai na Bélgica ou o Centro das Artes de Sines. E são apenas alguns exemplos.

Antes da faculdade, estudaram na Escola António Arroio de Lisboa, onde os irmãos Aires Mateus tiveram um percurso parecido… mas diferente.

Mais linear no caso de Manuel, que cedo começou a trabalhar em ateliês de arquitetura, e mais deambulante no caso do irmão. Francisco – «Guli» como era conhecido na bateria da banda de rock Radar Kadafi – estudou design e pintura. «Um percurso mais interessante e que o podia ter levado para outros campos», diz o irmão Manuel.

OS IRMÃOS AIRES MATEUS NÃO ABDICAM DE PARTICIPAR EM BIENAIS, COM A DE VENEZA, ONDE TENTAM SEMPRE ARRISCAR E DESCOBRIR NOVOS CAMINHOS.

Manuel é de 1963 e Francisco um ano mais novo e trabalham em conjunto há mais de trinta anos. Primeiro no ateliê do arquiteto Gonçalo Byrne e depois com obras e projetos próprios, entre as quais a saudosa discoteca Sociedade Anónima, na Ericeira.

Passaram para o período da descoberta, como o apelidam, e montaram ateliê. Primeiro num espaço comum que depois, há quinze anos, separaram em dois locais distintos de Lisboa. Um onde está Manuel e o outro onde está Francisco.

«Na prática não trabalhamos ambos da mesma maneira e a criação de diferentes estruturas, de diferentes tamanhos, foi a melhor opção para dar respostas mais flexíveis», diz o irmão mais velho, para quem essa é a melhor forma de trabalharem em conjunto.

«Além da grande vantagem de retirar da nossa relação as coisas chatas do dia-a-dia.» Francisco sorri, concorda e remata: «Interessa-nos, sobretudo, trabalhar em conjunto a ideia de investigação na arquitetura e da sua intervenção com o meio, e com a vida. Depois, o lado mais prático é feito num ateliê ou noutro.»

O ensino é outra tarefa que fazem em conjunto. São professores há 17 anos na prestigiada Universidade de Arquitetura de Mendrísio, na Suíça. Além disso, têm estado envolvidos com exposições nas últimas quatro edições da Bienal de Veneza, uma tarefa de que, dizem, não prescindem.

«Não abdicamos dos trabalhos que permitem fazer investigação com alguma liberdade. São sempre momentos de paragem, de reflexão e de risco, porque nos põem à prova, mas que depois trazemos para a prática.»

DOS VÁRIOS PROJETOS que têm em curso, há dois que se destacam: a nova entrada do Musée des Augustins, em Toulouse, «um novo corpo com o edifício e que mexe muito, também, com uma das poucas praças do centro de Toulouse», diz Francisco.

O Museu de Lausanne, «uma obra muito grande, com um grande investimento», é o outro projeto que diariamente paira nos pensamentos dos dois arquitetos. «É um projeto de execução difícil e tem mais construção em subsolo do que à superfície», diz Manuel.

Quer num ateliê quer noutro, fazem questão de trabalhar da sua forma preferida que apelidam de «artesanal». «Estudamos os materiais, usamos maquetas à escala natural, debatemos as soluções para os problemas», tudo pensado ao mais ínfimo pormenor, explica Manuel.

Aliás, ambos indicam que é essa a grande diferenciação que leva a arquitetura portuguesa a destacar-se entre as demais em qualquer lugar do planeta. Hoje, é possível encontrar vários arquitetos portugueses em qualquer dos grandes ateliers de renome internacional.

O irmão mais velho, Manuel, ao vencer o Prémio Pessoa em 2017, não esqueceu o mais novo. E fez questão de afirmar que a distinção só fazia sentido se repartida com o irmão Francisco.