Instrumentos com história tocados por jovens alunos do Conservatório

Há músicas que contam histórias. Há sons que nos enchem de nostalgia. E há notas, de instrumentos com história, que nos fazem viajar até ao passado. O contrabaixo que um dia pertenceu ao rei D. Carlos é um dos muitos que «coabitam» no Conservatório Nacional, juntamente com o João, a Laura ou o Henrique.

Texto de Patrícia Tadeia | Fotografias de Jorge Simão

A música não está nas notas, mas no silêncio entre elas», dizia Wolfgang Amadeus Mozart. Silêncio que só a experiência permite entender. Que o João, a Laura ou o Henrique já aceitam. Silêncio que é sagrado pelos corredores do espaço que agora serve os mais de mil alunos da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional. A instituição, criada em 1835, funciona atualmente numa escola de Lisboa, devido ao estado de degradação em que se encontra o antigo edifício (agora fechado para obras). É por isso, entre alunos a quem o estudo da música pouco diz, que os apaixonados pela arte vão crescendo.

E é também na sala ao lado que vários instrumentos seculares servem de material de estudo. «Este contrabaixo é anterior ao rei D. Carlos. Não há certezas, mas pensamos que tem alguma relação com Giovanni Bottesini, um dos mais importantes contrabaixistas italianos do tempo do Verdi e que em 1881 fez um recital no São Carlos e foi agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago pelo rei D. Luís. Diz-se que um professor que dava aulas no Conservatório o indicou por seguir o método de Bottesini», conta o professor Miguel Leiria Pereira. Aos 47 anos, é músico há 31. Depois de ter estudado nos EUA, voltou ao Conservatório que recebeu ao longo dos anos vários instrumentos oferecidos pela família real.

Poucos foram os alunos que se atreveram a tocar este contrabaixo Thibouville-Lamy. Mas João Kopke não hesitou e traçou aquele como um desafio nos 13 anos que esteve no Conservatório. «A minha relação com este instrumento começou antes de o começar a tocar. Começou quando o comecei a ver. Entrei aqui com 10 anos. Era muito miúdo. E pequenino. E aquele contrabaixo é 4/4, ou seja, é para um adulto. Comecei a tocar um mais pequeno e via sempre os professores a tocar com ele. Era um som brutal», recorda. «Não via a hora de lhe poder pegar. E quando chegou a hora, foi incrível. É um instrumento que impõe respeito pela história e pelo som. Comecei a gostar muito mais de tocar nos concertos. O som que produzia era completamente diferente», adianta o jovem de 23 anos que chegou à escola com a prancha de surf debaixo do braço.

«Este contrabaixo é anterior ao rei D. Carlos. Diz-se que um professor que dava aulas no Conservatório o indicou por seguir o método de Bottesini»

A saída do Conservatório deu-se no ano passado. Mas João não esquece a ligação que criou. «É um instrumento super parecido comigo. Ou fui ficando parecido com ele. Tanto pode ser o elefante a correr brincalhão como super virtuoso», explica o jovem que cresceu numa família de músicos. «Lá em casa? É a festa na floresta. Uma barulheira. Há vezes em que acordo depois de ter ido sair à noite, com a minha mãe ao piano às 10h00, e é ótimo acordar assim. Acordares com a tua mãe a tocar Bach é bonito.»

João é filho de Lilian Kopke, atual diretora da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional (EAMCM) e há dois anos no cargo. «A música surgiu na minha vida aos 6 anos, ainda em São Paulo. Há trinta anos que estou em Portugal. O ensino da música está muito bem. Temos de recusar alunos todos os anos, o que nos dá muita pena porque todos deviam ter o direito de estudar. Mas o nosso espaço é limitado. Temos 1050 alunos dos 6 aos 23 anos, mais do que no ano passado. Não temos mais porque não podemos», diz Lilian, depois de nos guiar pelo atual espaço.

Como mãe de um ex-aluno e professora acredita que o estudo da música é essencial. «O que a música traz? Disciplina. Às vezes é preciso repetir dez a vinte vezes para fazer bem uma passagem. E no dia seguinte, mais dez ou vinte. Mas com perseverança chega-se lá. Também ensina concentração no estudo. Ensina compromisso com um grupo. O aluno sabe que não pode falhar ou faltar, senão está a prejudicar um grupo de cinquenta ou sessenta pessoas», enumera.

E quem sabe bem a lição é Laura Álvares, 17 anos, já contabiliza onze no Conservatório, acompanhada pela professora Catherine Strynckx. «O que a música me trouxe? Muito conhecimento. Uma forma de viver completamente diferente», começa por dizer entre a timidez e a paixão pela arte. Quando fez o primeiro exame de admissão tinha 6 anos: «Estava um pouco nervosa porque eu nem sabia o que era um violoncelo [risos]. Achava que era um violino grande.»

Apesar de ter sido o destino a pôr-lhe o instrumento no caminho, a paixão pelo som que ele produz cresceu. E hoje, sempre que chega ao Conservatório, tem à sua espera, na sala, um violoncelo muito especial. «É um instrumento muito raro, português, datado de 1782. Um Galrão, que foi considerado o melhor luthier, que é quem fabrica e repara instrumentos, da época barroca. Vemos muitos Stradivarius mas um Galrão é raríssimo. Está estimado em cinquenta mil euros. Até é capaz de valer mais», começa por dizer Luís Sá Pessoa, professor no Conservatório há trinta anos.

«O que a música me trouxe? Muito conhecimento. Uma forma de viver completamente diferente»

«Enquanto aluno, também me foi emprestado, quando fui estudar para a Holanda. E quando fui lá a um luthier, toda a gente quis ver este violoncelo de perto», recorda, lembrando o momento em que pela primeira vez o instrumento entrou no Conservatório. «Foi em 1979. Eu era cá aluno no dia em que chegou. Pertencia a José Relvas, mas estava emprestado à D. Mimi Corte Brandão, enquanto ela fosse viva.»

O peso da história num instrumento que já conquistou Laura. «É uma responsabilidade, mas está a ser uma experiência muito boa, tem um som fabuloso, é muito melhor do que o meu violoncelo. A madeira é muito mais aberta», admite Laura, que está no último ano. «Segue-se um curso superior na área da música», garante. «Onde me vejo daqui a dez anos? Não sei, mas a tocar violoncelo, certamente.»

«É um instrumento muito raro, português, datado de 1782. Um Galrão, que foi considerado o melhor luthier, que é quem fabrica e repara instrumentos, da época barroca.

Quem também não tem dúvidas sobre o futuro é Henrique Laurett. Embora só esteja no Conservatório há três anos, já toca trombone há nove. Começou na Sociedade Filarmónica Comércio e Indústria da Amadora aos 11 anos e foi uma decisão que lhe moldou a vida. «Vim para a música por causa do meu avô, que era fuzileiro e tocava trompete na banda da Marinha. Comecei a tocar trombone tenor e depois passei para o baixo», explica. E é um «baixo» com história que toca atualmente. «Este Bach, comprado em 1958, tem uma característica que o torna mais difícil de tocar. Tem só uma válvula. Foi comprado à Cardoso Pereira, uma casa de instrumentos que existia na Rua do Carmo. A tubagem é mais larga, a campânula também. Faz a parte harmónica no registo mais grave», diz o professor Ismael Santos, que começou na música aos 4 anos, e no Conservatório aos 10.

«É uma responsabilidade tocar este trombone. Mas trato-o como se fosse meu. Foi esse o acordo. E tem-me ajudado bastante», admite o jovem de 20 anos que, ao tocar baixo, é um dos «suportes da banda». «O que aprendi com a música? A fazer parte de uma família. Vejo a música como uma segunda linguagem, universal. Faz-nos crescer interiormente e ver o mundo de formas diferentes», diz, lamentando que ainda haja quem não valorize a carreira: «Perguntam-me constantemente o que estudo. E quando respondo ‘Música’, dizem-me ‘Ah, agora a sério, o que fazes mais?’ Há essa falta de respeito de encarar a música como um trabalho. É assim em todas as artes.»

«Vim para a música por causa do meu avô, que era fuzileiro e tocava trompete na banda da Marinha.»

Ainda assim, Henrique acredita no seu sonho: «Quero ser músico da Gulbenkian. O acesso é muito difícil. Vou ter de trabalhar muito, mas hei de lá chegar.» E fá-lo-á com a ajuda de um instrumento com história. Até lá, continua a servir de suporte à banda nos concertos do Conservatório ou da filarmónica. Concertos esses que contam com uma presença muito especial na plateia: a do avô de 82 anos que vê agora o neto a seguir aquele que foi um dia o seu caminho.