Como iniciar uma coleção de arte

Ter gosto na aquisição, independentemente de ser a tendência do momento, é sucesso garantido para iniciar uma coleção de arte. Mas como começar? E como escolher o que investir? Curadores, galeristas e colecionadores apontam o melhor caminho a seguir.

Texto de Sandra Martins Pereira | Ilustração Getty Images

A empatia com o objeto e com o seu autor é o fator determinante na hora de iniciar uma coleção de arte. Este é o principal conselho dos especialistas, que acrescentam a visita a várias galerias, feiras, exposições e, acima de tudo, perguntar aos galeristas tudo o que se quer saber sobre a obra e o respetivo autor. Ainda outro conselho: «Colecionar arte é como escrever a nossa história e as nossas estórias nos objetos», diz Helena Mendes Pereira, chief curator da Zet Gallery, em Braga.

Fernando António Baptista Pereira, assessor do ministro da Cultura para o Património e Museus, sublinha a importância de formação na área – que pode ser feita tanto em escolas superiores como nas visitas a muitas feiras de arte e antiguidades no mundo inteiro. E até mesmo consultar catálogos de exposições, museus, leiloeiras e empresas de comércio de arte é estratégia. Mas vamos por partes.

Traçar um orçamento

É sabido que não é necessário ter uma fortuna para iniciar uma coleção de arte, todavia é necessário investir. E por isso é prioritário estabelecer um orçamento, um limite que não deve ultrapassar. «Tudo depende do que decidimos comprar, da geração do artista, da tipologia. Podem-se fazer coleções muito interessantes de múltiplos de arte, quer bidimensionais (gravuras), quer tridimensionais (como edições de objetos e escultura de pequena dimensão) quer mesmo livros de artista, um campo em enorme expansão.

É preciso ver e descobrir o que nos interessa», esclarece Delfim Sardo, curador de Artes Visuais da Culturgest. Uma coisa é certa: «Não se deve apressar a decisão de comprar uma peça de arte», diz Lourenço Egreja, comissário independente de projetos como Carpe Diem Arte e Pesquisa e JustLX. «Já vi muitas pessoas mudarem de gostos.

Mudam as conjunturas sociais e económicas, e o gosto muda.» Para contornar essa situação, Egreja indica a solução adotada em Espanha por muitos colecionadores: grandes edições de múltiplas obras são seriadas. A hipótese de começar uma coleção com uma série «permite um risco calculado, definindo quanto querem disponibilizar por aquela compra».

Onde comprar

As galerias e as feiras são os locais mais apontados para os bons negócios, embora não se deva descurar os leilões. Helena Mendes Pereira refere que «as melhores compras continuam a fazer-se presencialmente em galerias referenciadas e que dispõem de profissionais especializados».

Se a compra for efetuada em leilão, Fernando António Baptista Pereira alerta que o comprador deve ter acesso a todas as informações, desde a proveniência ao estado de conservação, os relatórios sobre o assunto e a razoabilidade do preço de licitação. Interessa saber se há outros interessados na compra, pois podem fazer subir exageradamente o preço. Também muito importante é a observação direta, de preferência com o auxílio de um perito.

Não comprar «gato por lebre»

Mais uma vez, só o conhecimento, com o passar do tempo, vai permitir aos colecionadores não comprarem o chamado gato por lebre. Pedro Almeida, proprietário da Allarts Gallery, em Lisboa e Cascais, defende que existem, nas várias áreas, peritos muito bem preparados tal como meios técnicos, tecnológicos e laboratoriais para executar peritagens com grande fiabilidade. «No contexto da arte contemporânea é mais fácil evitar os falsos, pois existe muita informação disponível e em alguns casos os próprios autores ainda podem testemunhar a autenticidade da sua obra», sublinha.

Investir em novos artistas?

Outra das questões que se põem amiúde entre colecionadores de primeira viagem é o investimento em obras de novos artistas. Delfim Sardo não tem dúvidas: «O futuro vale sempre a pena!» Opinião partilhada por Fernando António Baptista Pereira, que indica a importância de saber distinguir os artistas «que são promovidos por modas passageiras na comunicação social e os que, por vezes, são ignorados por esses mesmo media mas que triunfarão no futuro».

O que vale a pena visitar

NO ESTRANGEIRO
#Bienais de Veneza, Málaga e São Paulo.
#Art Basel
#AR.CO e Documenta Kassel.

EM PORTUGAL
#As galerias de Nuno Centeno, Pedro Oliveira, Fernando Santos, Cristina Guerra, Pedro Cera, Vera Cortez e Mário Sequeira substituem atualmente, no pódio, as clássicas Alvarez, 111 ou São Mamede – mais recomendadas para investimentos de larga escala.