Homo Faber 2018: Quando a realidade virtual dá a mão aos artesãos

A exposição dedicada aos Singular Talents, uma experiência de realidade virtual mergulha o visitante da Homo Faber nos ateliers de artesãos de excelência e mostra que tecnologia e tradição não tem de andar de costas voltadas. Antes pelo contrário.

Texto por Marina Almeida, em Veneza*

«Ajuste os óculos e os headphones. Estão bem? Vai ver uma grelha verde na parede, já está? Aqui tem a sua nova mão para esta aventura. Quando ouvir uma voz, a aventura vai começar. Boa viagem». É um dos jovens assistentes da exposição Singular Talents que nos dá assistência terrena, antes da grande ilusão. Estamos na sala da realidade virtual, quatro paredes pintadas de cinzento escuro, com as luzes reduzidas. Ainda avisa de que a parede em frente é a fronteira desta aventura, mas nada disto interessa a partir do momento em que a nossa mão direita passa a parecer a versão digital do gesto fundador do homem imortalizado por Michelangelo Buonarotti num fresco pintado no século XVI no teto da Capela Sistina. É com ela que fazemos contacto com o Homo Faber Colossus, que se ergue perante nós, perante uma cidade de Veneza liliputiana, e nos leva na palma da mão.

É neste tapete voador do século XXI que somos transportados até aos ateliers de três artesãos de excelência. De imediato ficamos rodeados pelos fabulosos mecanismos que dão vida aos autómatos de François Junot, maravilhosos brinquedos a que este francês dedica a vida. De óculos postos, andamos dentro dos mecanismos, a perceber que cada roda de metal tem um desenho específico, a que o artista chega por tentativa e erro, até atingir a perfeição exata do gesto final que quer provocar. Com a nossa mão virtual, interagimos com o processo. Qual varinha mágica, somos também homo faber, homem que faz com as suas próprias mãos – o cerne deste evento promovido pela Fundação Michelangelo, até ao próximo domingo.

De Veneza a Florença demoramos pouco. O gigante virtual, esta espécie de Hércules veneziano, leva-nos de novo sobre os telhados e dos canais para conhecer de perto (ou mesmo dentro) a arte de fazer desenhos de pedra de Leonardo Scarpelli. A forma como o artista Florentino esculpe pequenas peças de pedra, que escolhe a rigor, para compor um quadro. Um vaso com flores por exemplo. A mão que faz estremece: há que escolher onde colocar cada uma das peças. Somos artistas, outra vez.

Seguimos até à Suíça, ao atelier de Anita Porchet. Trabalha com esmalte e produz objetos extraordinários na mesma mesa com vista para o campo em que o pai o fazia. No mundo virtual, percebemos de que é feito o esmalte, que trabalho de tempo e paciência está na origem da miríade de cores com que, depois, Anita vai trabalhar.

O nosso Hércules privativo volta a poisar-nos no chão, despede-se e caminha rumo à cidade, espezinhando os jardins do mosteiro San Giorgio Maggiore. O gigante de Veneza e nasceu da arte de Guillaume Martin, com uma equipa de 15 “artesãos digitais”, para a Homo Faber. Ele é um designer de experiências interativas, que trabalha para empresas como a Patek Philippe, Hermés ou IKEA a partir da agência Emissive, em França.

Na sala ao lado ainda assistimos a estimulantes vídeos, que contam a história de 12 artesãos europeus, cuja arte se destaca pela sua raridade. Quando voltamos aos claustros do mosteiro veneziano, não havia sinais de destruição. E Veneza permanece intacta, do outro lado da lagoa.

*A jornalista viajou a convite da Michelangelo Foundation