História da onda mais icónica do mundo. E do japonês que a pintou

Katsushika Hokusai fez mais de trinta mil desenhos em toda a vida, mas só aos 70 anos criou A Grande Onda. Com esta obra, o artista japonês inspirou Vincent van Gogh. Em 2024, a icónica onda vai estar numa das faces das notas de mil ienes.

Texto de Marina Almeida

Chama-se A Grande Onda sobre Kanagawa e foi originalmente feita por volta de 1830, numa técnica japonesa de impressão manual a partir de blocos de madeira. Não se sabe ao certo quantos “originais” foram feitos a partir dessa data. Atualmente A Grande Onda pode ser vista no Art Institute, em Chicago, numa das suas raras aparições – três meses a cada cinco anos. E em milhões de reproduções, de tatuagem a T-shirt, passando por saco de pano ou peúga.

A imagem, idealizada Katsushika Hokusai aos 70 anos, é produzida através da sobreposição de cinco blocos de madeira, cada um com diferentes dimensões e cores do desenho. O desenho final mostra uma massa de água gigante, em tons de azul, que parece maior do que o monte Fuji (a montanha mais alta do Japão), que se prepara para desabar sobre três barquinhos de pesca. Uma iconografia universal que se desligou do criador. Quantos dos que a reproduzem e usam saberão quem a fez?

Apesar de A Grande Onda ter sido reproduzida em grande escala, a obra é hoje relativamente rara e preciosa

A Grande Onda é a primeira xilogravura da série de 36 vistas do monte Fuji que Katsushika Hokusai criou entre 1830 e a sua morte, em 1848, aos 88 anos. O artista japonês considerou mesmo que, antes desta série, não fez nada de jeito – e para trás estavam já milhares de desenhos, que ilustravam livros, jogos, cartazes, e impressões destinados a chegar às massas.

Apesar de A Grande Onda ter sido reproduzida em grande escala, a obra é hoje relativamente rara e preciosa. Há dois anos, num leilão da Christie’s em Nova Iorque, uma impressão atingiu os 830 mil euros. Regularmente exemplares da onda de Hokusai vão à praça, provenientes de coleções particulares. Há um grande interesse na obra daquele que é considerado um grande influenciador do modernismo ocidental.

Há alguns mistérios em torno de Hokusai e um deles é a data precisa de nascimento. Terá sido a 30 de outubro de 1760 em Sumida, Tóquio (na altura a capital nipónica chamava-se Edo). Para a sua biografia também não facilita a mudança constante de nome – o artista nasceu Tokitaro, publicou os primeiros trabalhos como Shunro, na sua campa está gravado Gakyo rojin manji, que significa o velho louco por arte, como gostava de se chamar nos últimos anos de vida – nem as mais de 90 moradas que teve. Adotou o nome por que veio a ficar conhecido durante mais de 50 anos. Katsushika refere-se ao local de Edo onde nasceu, Hokusai significa estúdio do norte.

Com seis anos Tokitaro já desenhava tudo o que o rodeava, aos 14 foi aprender o ofício de entalhador: no século XVIII no Japão, os livros feitos a partir de reprodução de gravuras impressas em blocos de madeira tornou-se uma forma popular de entretenimento. O mestre entalhador de Hokusai foi Katsukawa Shunsh, virtuoso da técnica tradicional japonesa ukiyo – que literalmente significa mundo flutuante e consiste em gravar em blocos de madeira diferentes dimensões de cenas da vida da altura, como os lutadores de sumo ou belas paisagens, e reproduzi-las em papel, sobrepondo diferentes camadas de desenhos e cores.

Foi com esta técnica manual de impressão que Hokusai criou A Grande Onda e as outras vistas do monte Fuji. Foram impressas entre cinco mil e oito mil ondas, mas não se sabe quantas resistem. Em 2017, a curadora da exposição dedicada ao artista nipónico no Museu Britânico, em Londres, estimava que seriam umas centenas. Este é um dos espaços que guardam reproduções da obra emblemática, bem como o Rijksmuseum, em Amesterdão, o Metropolitan Museum of Art (Met), em Nova Iorque, ou a Biblioteca Nacional de França.

Hokusai retratado pelo também pintor nipónico Keisai Eisen.

Também o Art Institute, em Chicago, é guardião de três gravuras, todas de fases finais de impressão, que estão atualmente expostas numa das suas fugazes aparições de três meses a cada cinco anos, na exposição Connosseurship of Japan Prints. A sala onde estão as três reproduções (25,7 por 37,9 centímetros cada) tem a iluminação reduzida, para evitar ao máximo danificar as cores. “Adoro pô-las lado a lado ao mesmo tempo”, escreve a curadora do Art Institute, Janice Katz, no site. “As pessoas não sabem que é uma impressão, é algo que foi comercialmente produzido para o mercado de massas. Não é uma pintura e não é um trabalho único, há várias em todo o mundo e várias edições”, refere.

Lucas Livingstone integra a equipa do serviço educativo do Art Institute. Vai fazer várias visitas guiadas à exposição Connosseurship of Japan Prints, e em junho o seu foco serão as três impressões da onda de Hokusai: “É sem dúvida a xilogravura japonesa mais conhecida nos tempos modernos”, refere. “A exposição mostra lado a lado várias imagens impressas dos mesmos blocos de madeira, permitindo fazer comparações a partir do resultado final do processo. As diferenças podem ser acidentais, resultado da degradação da madeira, ou intencionais, como a escolha das tintas a aplicar”, explica-nos.

Dessa observação, que Lucas vai orientar, o visitante consegue perceber quais as impressões mais antigas e as mais recentes, as condições de conservação antes de chegar ao museu. “Hokusai teve toda a vida um fascínio pelo monte Fuji, pelas ondas e por capturar aspetos efémeros da natureza, como o vento, a luz e a água. Isso convergiu n’A Grande Onda, que realizou aos 70 anos e continuou até à sua morte aos 88″, explicou num depoimento escrito.

As composições criadas por si influenciaram pintores ocidentais como o holandês Vincent van Gogh – veja-se o azul-da-prússia e o céu em turbilhão. Também Claude Monet e Edgar Degas foram beber aos desenhos de Hokusai

Passaram-se quase dois séculos e esta é uma obra frágil e fascinante. O Museu Britânico fez um estudo de conservação e concluiu que as impressões só podem estar expostas 20% do tempo e com luz difusa. Antes desta exposição, têm de estar um ano na escuridão. O problema é um pigmento amarelo, e não tanto o famoso azul-da-prússia, que Hokusai pela primeira vez utilizou. Naomi Takafuchi, do Met, revela-nos que o museu tem quatro impressões na coleção, duas de uma fase inicial, e que as peças não estão muito tempo em exposição por razões de conservação. Produzida num período em que o Japão estava fechado ao mundo exterior, A Grande Onda apenas chegou à Europa na exposição de Paris em 1867 – já depois da morte do artista nipónico.

Mas as composições criadas por si influenciaram pintores ocidentais como o holandês Vincent van Gogh – veja-se o azul-da-prússia e o céu em turbilhão. Também Claude Monet e Edgar Degas foram beber aos desenhos de Hokusai, e Claude Debussy inspirou-se na famosa onda para compor La Mer (1905).

No leito de morte, Hokusai ainda suspirou: “Se o Céu me desse mais dez anos… só mais cinco anos, eu poderia tornar-me um verdadeiro pintor.” Não, não chegou aos 110 anos. Mas A Grande Onda tornou-se um ícone, uma das imagens mais reproduzidas em todo o mundo. Posters, toalhas, canecas, aventais, vestidos. Em 1991 deu o nome a uma cratera descoberta em Mercúrio. E a partir de 2024, pela primeira vez, numa das faces da nota de mil ienes, anunciou o Banco Nacional do Japão no início de abril.