Fundição de bronze: a arte a 1300 graus

Na Mão de Fogo transformam-se as ideias dos artistas em esculturas de bronze. As ideias chegam à oficina de fundição sob a forma de desenho, de maquete, ou até de um gigantesco bloco de pedra e são depois fotocopiadas em bronze, ganhando peso e forma. A escultura I’ll be your Mirror #1, de Joana Vasconcelos, foi uma delas.

Reportagem de Marina Almeida | Fotografias de João Silva/Global Imagens

Rui Palmas abriu a Mão de Fogo há 20 anos. O nome da fundição diz quase tudo. Ali entram projetos de escultores, lingotes de bronze, e saem obras de arte. Pelo meio, o trabalho artesanal, de fazer o molde da peça, onde depois vai solidificar o bronze, vertido a 1300 graus. Um processo que demora semanas a concluir, e que antes de ser metal, é cera. Por isso começamos a conversa numa zona da oficina mais fresca. Estamos em pleno Alentejo, a poucos quilómetros de Montemor-o-Novo. Tudo conta nesta equação.

Depois de acolher a ideia do artista – os chamados originais -, Rui Palmas tem de criar um molde exato da peça, antes do trabalho de fundição. E se alguns escultores lhe levam maquetes em cartão, madeira, ou pedra, outros entregam-lhe… uma ideia. Cabe aos Mão de Fogo transformar essa abstração num objeto. E isso não é coisa pouca. “Muitas vezes os artistas aparecem-nos cá com ideias, quando não é com textos. Aparecem cá com uma maquete de cartão, com uma ideia e nós vamos à procura de como é que se faz. Contratamos empresas, um desenhador, um engenheiro para fazer cálculos, alguém para transportar. Ou seja tratamos de toda a logística”, conta. Rui abriu este negócio com mais dois colegas quando a fundição em que trabalhavam fechou. “Um senhor de Madrid que tinha uma fundição disse-nos que podíamos fazer uma, ensinou-nos a fazer as nossas máquinas, os fornos, e a partir daí fomos fazendo. Somos técnicos e é isso que fazemos aos artistas, olhamos para as ideias deles e desmontamos todo o trabalho de maneira a que a coisa resulte. Vamos à procura dos melhores materiais, das melhores técnicas.”

Por exemplo, no caso da peça de Joana Vasconcelos I’ll be Your Mirror #1 (2018), constituída por dezenas de espelhos colocados em molduras de bronze, coube à equipa de Rui Palmas encontrar a melhor solução para transformar as peças de madeira trabalhada em bronze. “A Joana Vasconcelos deu esta ideia, de usar uma moldura de madeira [mostra a peça]. Depois fomos à procura de um entalhador que a fizesse, preparámos as caixas de fundição, algumas delas foram aqui fundidas, outras noutra fundição, a montagem foi feita por uma empresa e nós fomos dar o acabamento final. Foi uma equipa que trabalhou naquela peça”, explica-nos. Esta escultura monumental da artista plástica portuguesa foi exposta pela primeira vez na exposição do Museu Guggenheim, em Bilbau, e pode agora ser vista na Fundação Serralves, no Porto, até dia 24: é a peça central da exposição I’m your Mirror.

A peça de Joana Vasconcelos I´ll Be Your Mirror#1 (2018) é constituída por dezenas de espelhos colocados em molduras de bronze. Coube à equipa de Rui Palmas encontrar a melhor solução para transformar as peças de madeira trabalhada em bronze.

Seja qual for o objeto que se vai transformar em bronze, todos passam por um processo que o faz primeiro ser uma réplica em cera. Rui Palmas explica: “Começamos por executar um molde em silicone, ou seja, cobrimos toda a peça com uma borracha de silicone que vai copiar todos os pormenores da peça e vai fazer uma espécie de negativo. Depois a borracha abre, a escultura sai e fica o espaço vazio. Dentro deste espaço vazio, colocamos cera quente líquida e a cera quando entra vai adoçar-se ao silicone, quando arrefece vai criar uma peça exatamente igual aquilo que estava”.

Na Mão de Fogo, Rui Palmas trabalha com bronze italiano, próprio para a fundição artísitca. (Fotografia João Silva/Global Imagens)

Com a réplica de cera, passamos para uma zona da oficina mais quente. Rui Palmas explica que a partir do molde de cera vai criar o molde para a futura peça de bronze. “É como se estivéssemos a fazer um panado”. Mergulha a peça de cera num líquido, e depois num pó – silicato de alumina. o líquido é como se fosse o ovo, o silicato de alumina o pão ralado, brinca. A operação é repetida pelo menos nove vezes (pode ser mais, dependendo do tamanho da peça) e cria-se uma “casca cerâmica”. É para aqui que será vazado o bronze fundido – depois de removida a cera, que é reutilizada. Nestes moldes são acoplados uns canais que fazem sair o ar quando o bronze líquido entra na forma.

Naquele dia Rui estava dedicado a limar alguns detalhes dos moldes de cera que compõem o corpo de um soldado. Vai ser uma estátua em Miajadas, Cáceres, terra natal de um herói militar espanhol, Saturnino Martín Cerezo. Mas antes, o general da brigada de Infantaria que resistiu 337 dias sitiado em Baler, nas Filipinas, é cabeça, tronco e membros de cera. A próxima fase é fazer dele um panado, ou seja, criar as caixas de moldes que vão permitir imortalizá-lo em bronze. Em setembro terá uma réplica em bronze, que os heróis não morrem.

O herói militarespanhol Saturnino Martín Cerezo será eternizado numa estátua de bronze em Miajadas, Cáceres, sua terra natal. Mas, por agora, ainda é feito de cera na fundição Mão de Fogo, no Alentejo. (Fotografias João Silva/Global Imagens)

Pela oficina espalham-se bocados de peças por montar, como uma polida cabeça de urso que aguarda ser unida às mãos de um homem com uma cabeça de lata. Até lá, o urso está aos pés de uma peça de ferro do artista português Pedro Léger Pereira. A arte ali está desarrumada.

O bronze utilizado na Mãos de Fogo chega de Itália em lingotes. Trata-se de bronze de silício, próprio para fundição artística. É fundido no forno, um elemento circular colocado num extremo da oficina. Após mais de uma hora a derreter, o bronze fica líquido, como água incandescente. Está a 1300 graus. Com a ajuda de uma grua, o copo com o metal líquido é içado e, finalmente, vertido nos moldes.

Para já, no meio da oficina está uma monumental pedra polida fissurada. Em breve, a pedra será bronze

Por todo este processo passou também a escultura Sea Wolf. É a mais recente peça da fundição alentejana, e está nos jardins de Belém. É da autoria do escultor canadiano Luc Marston, que “pertence à primeira nação indígena Coast Salish e é descendente de um pescador português que emigrou para a Columbia britânica em meados do século XIX”, lê-se no local. Agora olhamos para as estátuas com outros olhos. Vemos aqui e ali o sítio onde a peça, provavelmente, foi dissecada.

Após 20 anos de trabalho, a Mão de Fogo começa a dar passos no sentido de fazer residências artísticas. É um novo projeto, que arranca nos próximos meses com um artista espanhol. Para já, no meio da oficina está uma monumental pedra polida fissurada. Em breve, a pedra será bronze. Ali, todos os materiais se transformam em bronze. Como uma impressora 3D.