Exposição da BMW mostra obras de arte que também são carros de corrida

Exposição está patente no Museu da BMW, em Munique.

Automóveis que são verdadeiras obras de arte. Este é o mote para a exposição «BMW Art Cars, Como uma visão se transforma em realidade», patente no museu da BMW em Munique, até ao próximo mês de fevereiro. Alexander Calder, Andy Warhol, Jeff Koons, ou John Baldessari são alguns dos artistas que personalizaram os automóveis da marca nos últimos 40 anos, tornando-os únicos e exclusivos. A DN Ócio foi conhecê-los.

Reportagem de Patrícia Tadeia, em Munique*

Museu da BMW, em Munique. Lá fora, os termómetros assinalam 1°C. A neve cobre as estradas. Passam três minutos das 10h, a hora combinada com Thomas Girst, head of Cultural Engagement da BMW. «Estão 19 graus em Lisboa, o que fazem aqui?», pergunta-nos assim que chega. Confessa ter esperado uns minutos para não ceder à habitual pontualidade germânica. A boa disposição e simpatia de Thomas quase nos convencem de que todos os alemães têm um sorriso no rosto. Não têm. E talvez nem todos façam o caminho para o trabalho de bicicleta, como diz ter feito nessa manhã, pouco depois do nevão que caiu às primeiras horas.

O museu automóvel da história da BMW localiza-se perto do Olympiapark em Munique. Foi criado em 1973, pouco depois do arranque dos Jogos Olímpicos de Verão. Ao lado, ergue-se o BMW Welt, onde a marca acolhe clientes, amigos e turistas de todo o mundo.

No Museu encontramos sete dos 19 veículos personalizados por artistas de renome. Entre eles estão os «Big Four», os BMW Art Cars de Alexander Calder, Frank Stella, Roy Lichtenstein e Andy Warhol. A estes quatro juntam-se os Art Cars #18 da artista chinesa Cao Fei e #19 do americano John Baldessari. O BMW M3 GT2 de Jeff Koons completa a exposição.

«Estou orgulhoso desta exposição, destaca a BMW das demais empresas, coloca-a numa posição diferente. Ninguém arrisca fazê-lo porque já o fazemos há 40 anos. E é algo que nos dá crédito», começa por dizer Thomas. «Para mim, trabalhar com estes artistas de perto quando estão a criar um BMW Art Car, fazer parte do processo, ajudá-los a escolher a cor certa, completa-me. Há tantas histórias que ficam, tantos detalhes», adianta. Como por exemplo, o momento em que, em 1979, a lenda da Pop Art, Andy Warhol pintou um BMW M1 – do início ao fim – em apenas 28 minutos. «Quando a equipa de filmagem chegou para gravar o momento, a obra de arte estava praticamente concluída. Apenas as últimas pinceladas ficaram documentadas no filme», conta enquanto vemos a assinatura de Warhol, feita com um dedo, no para-choques traseiro do automóvel.

Todas estas verdadeiras obras de arte são depois levadas para a pista, onde competem. Em 1975, Alexander Calder pintou um BMW 3.0 CSL. Nesse mesmo ano, o leiloeiro e piloto de corridas francês Hervé Poulain conduziu-o nas 24 Horas de Le Mans. O Art Car de Frank Stella, esteve no ano seguinte na grelha de partida da mesma competição.

Enquanto nos fala da mostra, Thomas confessa que quando era pequeno nunca ligou a carros. «Brincava com bonecas», admite. «A minha madrinha levou-me a viajar pelo mundo e introduziu-me às artes. Foi também ela que me ofereceu o meu primeiro carro, que por acaso foi um BMW serie 3», recorda. «Quando comecei a trabalhar aqui, não tinha qualquer ligação com a marca e pedi para trabalhar num turno extra, no terreno, com os motores, durante 3 semanas, para criar essa ligação. Hoje em dia, a empresa repete esse processo como parte da integração dos trabalhadores. É como o Tetris… os automóveis eram um vazio na minha vida que, para mim, foi preenchido com a BMW», compara o alemão que estudou nos EUA.

Cao Fei e John Baldessari foram os mais recentes convidados do projeto, ao personalizarem dois automóveis BMW M6 GT3. A artista chinesa de 40 anos ligou vídeo com animação 3D a elementos de realidade virtual. O BMW Art Car #18, com acabamentos em carbono preto, reflete a rapidez da mudança que está a ocorrer na China, juntamente com as tradições e o futuro do seu país. Cao Fei transporta esta coleção para o século XXI, com o primeiro BMW Art Car combinado com vídeo de realidade aumentada.

Já o americano John Baldessari, que está entre os trabalhos mais pioneiros de arte contemporânea, desde os anos 60, imprimiu a sua reconhecida marca no 19.º BMW Art Car e, enquanto minimalista assumido, trabalhou exclusivamente com as cores vermelho, amarelo, azul e verde.

Ao longo de 40 anos, foram 19 os carros pensados para este projeto. Os artistas são escolhidos por um grupo de conceituados curadores e diretores de museus de todo o mundo. Mas se fosse Thomas a escolher, quem seria o próximo artista? Primeiro hesita. Não quer fugir ao protocolo. Mas acaba por responder. «Gostaria de convidar Matthew Barney ou Maurizio Cattelan», refere, confessando-se colecionador: «Convivi com vários artistas contemporâneos, por isso, sim, mas acho que ser colecionador é algo muito íntimo. Acho que hoje em dia coleciono é mais crianças… [risos] Tenho três filhos, e não há orçamento para mais nada [risos].»

Então, e voltando ao projeto, para quando um carro número 20? «Ainda é segredo [risos]. Adorava fazer o carro #20 em 2020, mas ainda não estamos preparados. A beleza do projeto é o espaço entre cada um dos carros. Há projetos com oito anos de diferença. Não o fazemos pela comunicação. Mas sim, quando estamos prontos. Poderá o próximo carro ser elétrico, competir na Formula E? Tudo isto pode fazer sentido. Como por exemplo, no caso da Cao Fei, que levou o projeto para o futuro, aplicando a realidade virtual aumentada. Já não se trata de pintura, mas de entrar nas novas tecnologias», conclui.

* A DN Ócio viajou até Munique a convite da BMW.