Dez artesãos e designers portugueses entre os melhores da Europa

A Homo Faber, grande montra dos métiers d’art, quer mostrar que o saber artesanal é um bem precioso que nenhuma tecnologia substitui. Ali,dez artesãos e designers portugueses mostraram a sua arte entre os melhores da Europa. O evento regressa em 2020.

Reportagem de Marina Almeida, em Veneza

A que soa a cerâmica? A dada altura, Catarina Nunes descobriu que nas peças dela se ouve o mar. As delicadas esculturas cerâmicas, com centenas de olhinhos (parecem milhares) fazem música quando por elas se passa a mão. Não há duas iguais e o som de cada peça apenas se descobre depois da cozedura. «Cada peça tem um som diferente, dependendo do tipo de pasta cerâmica que uso, da configuração», conta a ceramista de 40 anos. «Agrada-me esta ideia de que as pessoas possam tocar, e que as pessoas se sintam tentadas a tocar», diz.

Um dos exemplares da coleção Kodama esteve em exposição na Homo Faber, o evento que juntou a excelência do design e do craftsmanship da Europa em Veneza, Itália. Mas ali ninguém lhe podia tocar. Era uma das largas centenas de peças expostas em Best of Europe, uma das 16 exposições deste mega evento promovido pela Michelangelo Foundation.

Chegamos a ela guiados por uma das Young Ambassadors, de tablet em punho, procurando a peça entre uma miríade de objetos representativos da nata da artesania europeia. A organização trabalhou com escolas para recrutar jovens artistas e designers que estiveram na ilha San Giorgio Maggiore a apresentar as exposições e a fazer contactos com gente de todo o continente, numa estimulante variedade de ofícios, materiais e propostas.

De Portugal chegaram dez artesãos e designers, alguns com peças em exposição, outros participaram nas demonstrações ao vivo do seu ofício. Foi o caso de Miguel Alonso. Durante dois dias o jovem entalhador da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva (para já, a única instituição parceira da Michelangelo em Portugal) mostrou o que é trabalhar a madeira no espaço Best of Europe. «Tenho uma peça por fazer e outra feita, normalmente uso-a como referência para as outras três pernas [da mesa]», conta, admitindo a surpresa com tantos visitantes interessados no seu trabalho. «Infelizmente em Portugal este fenómeno das pessoas terem interesse pela arte e por este tipo de ofícios não é comum», refere.

Dois dias depois, foi a vez de Manuel Ferreira ocupar o espaço deixado vago por Miguel. A organização teve de fazer alguns ajustes: o artesão de bunho, uma rara técnica de cestaria, trabalha num pequeno banco junto ao chão, rodeado longas palhas. «Foi um espetáculo», recorda na sua oficina, em Santarém. Perdeu a conta às pessoas que o foram ver trabalhar, e que faziam perguntas – que um jovem intérprete de italiano ou inglês ajudava a traduzir. Fez uma cadeira, que ofereceu à organização, e trouxe para casa a encomenda de outra, que já despachou.

É dos poucos artesãos desta arte, que usa uma planta esponjosa para criar peças de mobiliário ou cestos. O bunho é uma espécie que ocorre junto a cursos de água, com grandes palhas ocas, moldáveis se molhadas. Fez um curso de formação há 30 anos, e esta tem sido a sua vida. Na altura, aprendeu com o único velhote da aldeia de Secorio (a cerca de dez quilómetros de Santarém): «A câmara lá conseguiu convencer o senhor Matias Domingues, que era o velhote que ainda fazia disto. Éramos dez a aprender. Só fiquei eu», conta. Mais recentemente nasceu a congregação de tanheiros – um tanho é um banco igual aos que faz – e apareceram mais dois homens que «vão fazendo umas coisinhas mas só para eles». O artesanato de bunho sobrevive pelas mãos de Manuel Ferreira. Mas as mãos dele estão cansadas. Cada peça exige centenas de nós, quatro a cinco horas de trabalho em contínuo – que já não consegue fazer de uma assentada.

Outra guardiã da raridade é Maria Dinis Pereira e também esta artesã foi de Nisa a Veneza mostrar a sua arte durante três dias. Levou um centro de mesa em feltro de lã com aplicações bordadas a duas cores especialmente para o evento, e levou outras peças já terminadas, como uma manta de feltro de lã bordada a linha de seda, que levara oito meses de trabalho. «Vi a admiração nos olhos das pessoas», refere.

Maria Dinis Pereira não esquece os dias que se apresentou na Homo Faber. «Senti que a minha terra e o meu trabalho estavam bem representados no meio daquela sala linda e cheia de peças maravilhosas de vários países». E gostou especialmente dos Young Ambassadors: «jovens estudantes, muito interessados e admirados com o que viam e isso fez-me pensar no que nos falta para que não se perca o nosso artesanato. Que os jovens se interessem e queiram aprender. Mas têm que aprender e depois praticar muito, que é como se consegue chegar mais além. Gostava que os jovens se voltassem a encantar com o artesanato. Querer experimentar e aprender é importante e será uma forma de dar continuidade a estas artes».

Maria Dinis Pereira sabe-o bem. Tem 75 e aprendeu sozinha a fazer estas maravilhas a partir do feltro de lã. «Quando era menina de oito anos bordei o meu primeiro lenço. Depois fui sempre aprendendo com quem me ensinava, artesãs que me apoiaram e me ajudaram a ganhar experiência. Na altura era assim, as meninas iam aprender a bordar com as mestras, pessoas que ensinavam a bordar, a desenhar», recorda. Aos 18 anos começou a costurar, aos 23 abriu o seu negócio, inédito na altura. «A minha primeira venda foi uma saia de feltro bordada usada nas festas típicas de Nisa».

Também Ana Maria e Ana Luísa, bordadeiras da Madeira, experimentaram o entusiasmo dos visitantes da Homo Faber – e tal como Maria Dinis Pereira, esgotaram todos os cartões de visita que levaram. As duas artesãs apresentaram-se num espaço diferente, o Discovery and Rediscovery – local onde se apresentavam grandes marcas internacionais como a Montblac, Cartier ou Vacheron Constatin, entre muitas outras. Maria Ana, 50 anos, segura um pano onde borda o ponto richelieu a linha azul. «Trouxe uma toalhinha pequena, que tinha os pontos todos, mas já acabei. E agora estou a fazer outra de richelieu. Dentro do richelieu tem vários pontos. Os bastidos, granitos e o ponto corda…» vai explicando. Têm sido assim, os seus dias venezianos. Ouvir gente curiosa, explicar que arte é aquela, como se faz.

«As pessoas batem palmas, dão-nos os parabéns, dizem que é um espetáculo ver-nos a bordar», diz. Ao seu lado, está Ana Luísa e atrás delas está uma enorme toalha de mesa. Ambas acreditam que eventos como a Homo Faber podem ajudar ao reconhecimento do seu ofício e à valorização dos produtos, até porque trabalho não lhes falta e interesse, pelos vistos, também não. Os visitantes, «levam tudo filmado para aprender como se faz».

Aprender, reconhecer valor aos métiers d’art na era da tecnologia é o objeto desta iniciativa inédita, que deverá regressar em 2020 a Veneza. Nicole Segundo, a responsável da Fundação Michelangelo para Portugal, alerta que há um grande trabalho por fazer no país. “Estamos no início de descobrir o enorme tesouro de craftsmanship que existe em Portugal”, disse.

O designer Vítor Agostinho esteve duplamente representado na Homo Faber. Com duas esculturas de vidro na exposição Centuries of Shape, com curadoria do Museu de Design da Trienal, e no Best of Europe, com o projeto Cerne Mutante, com Samuel Reis. Os dois ex-alunos da ESAD (Escola Superior de Artes e Design) acabaram por se fixar nas Caldas da Rainha onde desenvolvem os seus projetos. Samuel trabalha a madeira, Vítor o vidro. Juntos criaram um projeto em que os moldes de madeira, usando troncos de árvores e tirando partido de todas as nuances do interior, que são depois vertidas em peças de vidro. Nunca sabem como a peça vai ficar – e é isso que lhes dá um «gozo incrível».

Bem perto, também nos Silos Contentor Criativo, Eneida Lombe Tavares partilha o atelier com Jorge Carreira. Os trabalhos destes artistas foram escolhidos com a ajuda da Experimenta Design. Eneida, 28 anos, teve em Veneza (também em Best of Europe) uma jarra do seu projeto Caruma, em que junta cerâmica e cestaria feita com agulhas de pinheiro. «Tentei juntar o contexto em que cresci, português e mais concretamente aqui nas caldas onde comecei a trabalhar com cerâmica, e juntar essa técnica da cestaria com a espiral cosida, que tinha mais a ver com as minhas raízes biológicas [Angola e Cabo Verde]. A ideia é juntar essas duas coisas que parecem tão opostas mas que na verdade uma é consequência da outra no ponto de vista da história do craft e da manufatura».
Tal como Eneida, Jorge Carreira, 35 anos, natural de Guimarães, apresentou o projeto que resultou da tese de mestrado, também na ESAD. «Na altura andava obcecado com autonomia. Desenvolvi vários processos em que construia desde o material (molde/máquina) até ao objeto final. Este projeto nasce daí». O resultado é um conjunto de três jarras de vidro, onde o artista foi surpreendido no processo com uns óxidos de metal que se colaram ao vidro.

Alberto Cavalli foi o curador principal da Homo Faber, que juntou 400 artesãos de toda a Europa. Com ele trabalharam os curadores das 16 exposições, além de todo o staff da Michelangelo Foundation. Estava cansado mas feliz. Passaram pelo evento mais de 60 mil visitantes, ao longo de dez dias, para ver o trabalho de artesãos e designers, em variadas e estimulantes propostas e materiais. Um regalo para os olhos, premiado com várias exibições ao vivo. «Espero que em Portugal seja o tempo do renascimento dos ofícios de excelência. Têm grandes instituições prontas a ajudar», disse à DN Ócio.

Para Alberto Cavalli, o problema da falta de reconhecimento dos ofícios tradicionais não é exclusivo português. Há uma falta de autoestima europeia. «Sim. Penso que os mestres artesãos não são vistos como os seres humanos incrivelmente talentosos que eles são. Se fores professor universitário ou decorador de porcelanas as pessoas olham para ti de formas diferentes. Acho que um grande mestre artesão é um ser humano que enriquece a cultura, os sentimentos, a um intérprete da beleza dos tempos contemporâneos. Espero que a Homo Faber contribua para mudar a perceção dos mestres artesãos».

Catarina Nunes concorda. Por vezes tem dificuldade em dizer o que faz. Reconhece que a Homo Faber foi «super importante», mas em Portugal está tudo a começar. «É um mundo muito difícil e muito complexo em Portugal porque o mercado é muito pequeno. As pessoas que estão nestas áreas criativas sentem uma certa desvalorização e que têm de fazer outras áreas para sobreviver – damos aulas, fazemos produção, vendemos em feiras, acabamos por desvalorizar o nosso trabalho para fazer outras coisas porque temos de … comer». A ceramista tem um pequeno atelier em casa, onde passa menos tempo do que gostaria. O apartamento, em Lisboa, acaba por ser uma montra da sua delicada produção. Ali estão as várias esculturas sonoras, outras peças inspiradas no mar e um impressionante cobertor cerâmico que fez no Japão, durante o mestrado em artes plásticas. Todos os dias percorria os 50 quilómetros entre casa e a universidade, a Tama art university, em Tóquio, de comboio. É uma peça que pesa 40 quilos, que as pessoas são convidadas a sentir, deitando-se debaixo dela. Mostra um homem sentado a dormir – foi fotografado e depois desenhado por Catarina, e transposto para cerâmica em centenas de quadrados. «Envolve um trabalho louco. Estão todos furados, feitos um a um, pintado à mão. É trabalho para seis meses», conta.

Uma das peças em destaque na exposição Best of Europe foi o espelho em filigrana, da autoria de Rui Pinto para a Boca do Lobo. Aos 41 anos Rui diz com orgulho que tem 21 de arte. Fez o curso de ourivesaria no Cindor (Gondomar) mas não se ficou pela tradição: criou uma linguagem própria. «Interpreto a parte da joalharia e ourivesaria como uma parte da escultura», diz. Tem um gosto por peças grandes – e é isso que impressiona no espelho, que passa a ser uma joia para pôr na parede. «Não me agrada a filigrana em tamanho pequeno, agrada-me dar-lhe um volume e estudar as estruturas para o funcionamento da filigrana em ponto grande», conta. «Quando me apareceu o Marco [Costa, designer da Boca do Lobo] a querer fazer um espelho com aquela definição em filigrana, em que tivemos de alterar toda a trama, foi das coisas que mais me entusiasmou». Foi um mês de trabalho para três pessoas, com muitas horas extra e algumas diretas.

O resultado é não só surpreendente. Talvez seja também um caminho para garantir o futuro da tradição. «Eu acabo por ter um bocadinho a culpa nisto tudo porque sou formador na área de ourivesaria e percebo o que as pessoas procuram – que é andar para a frente com os pés assentes no passado». Que é como quem diz, privilegiar as técnicas ancestrais, as manualidades, o rigor do fazer, mas encontrar novas linguagens. Nas aulas, Rui Pinto ensina a tradição «de preferência, nas primeiras vezes [fazer] sem maquinaria». Depois o que sai dali, logo se vê. No caso dele, depois do espelho, deverá aplicar a sua arte numa mesa da marca portuguesa de móveis de luxo.