Desenhos de Pomar, Cabrita Reis e Helena Almeida vão estar no Drawing Room Lisboa

São desenhos de artistas portugueses e internacionais que se apresentam de 10 a 13 de outubro na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. Um nicho com crescente importância no mercado internacional da arte, representando já um quarto do seu valor. Há desenhos entre 400 e 40 mil euros.

Texto de Marina Almeida

“O desenho tem essa capacidade de mostrar o pensamento mais íntimo do artista. Quem quer aprofundar o estudo do trabalho de um artista, quando conhece os seus desenhos, tem a sensação de o conhecer melhor. Isto acontece muito em casos de artistas com grandes produções, que trabalham com ajuda de muitos assistentes. O desenho é o que não se pode delegar. As primeiras ideias saem da sua mão e essa ideia, o amante da arte valoriza-a”.

É desta forma que Mónica Alvarez Careaga explica a importância do desenho de artistas contemporâneos. De 10 a 13 de outubro, 75 artistas nacionais e estrangeiros vão ter os seus trabalhos em exposição e venda na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa no Drawing Room Lisboa.

As feiras de desenho estão num momento importante em todo o mundo. A mais importante de todas é a de Paris, que tem já 13 anos”

É a segunda edição do evento na capital portuguesa. “As feiras de desenho estão num momento importante em todo o mundo. A mais importante de todas é a de Paris, que tem já 13 anos, e depois surgiram feiras de desenho contemporâneo em Bruxelas, em Berlim, Munique, Basileia, Lugano. É uma iniciativa que está em expansão, no ano passado cresceu, surgiu a semana de desenho de Londres, uma cidade que tem um mercado de arte importante”, enquadra.

Sentamo-nos numa sala da Sociedade Nacional de Belas Artes. Mónica Careaga não esconde a satisfação de voltar a Lisboa, e dos apoios de várias instituições que conseguiu mesmo sendo espanhola. Entre as quais a autarquia de Lisboa – quando a madrilena não se associou ao evento na capital espanhola. “Ainda mais como estrangeira, até me emociona um pouco…”.

Desenho da artista portuguesa Helena Almeida (DR)

Mónica não desenha. Antes pensa projetos culturais. É comissária, produtora e consultora de arte contemporânea. Formada em História de Arte pela Universidade de Oviedo, e em museologia pela École du Louvre, Paris, trabalhou muito em exposições em contexto de feiras. Nos últimos anos apercebeu-se da crescente tendência para o desenho: “Três feiras pediram-me isso: reunir uma zona de galerias que representassem o desenho. E estava a especializar-me em detetar artistas que trabalhassem em desenho quando um grupo de galeristas espanhóis chamou-me e disse-me que gostavam de fazer uma feira nova. E sugeriu a ideia de fazer uma feira especializada em desenho”.

Mónica brinca dizendo que em Espanha, no meio da arte, se diz que há “muitos arquitos“, muitas pequenas ARCO – a grande feira de arte contemporânea. “Eu não queria fazer um arquito, queria fazer uma feira diferente, especializada. E assim diferenciámos o projeto”.

O mercado internacional do desenho tem aumentado, graças ao cliente chinês: “A sua tradição pictórica, a pintura chinesa, é o que nós chamamos desenho, porque valoriza o traço do artista e a obra tem sempre um espaço em branco, sem ser trabalhado. Nos últimos anos a erupção de compradores chineses, com muito dinheiro, fez com que um quarto do mercado de arte seja desenho sobre papel“, refere. Feitas as contas, representa 1500 milhões de dólares.

Já no mercado ocidental “há uma tradição de valorizar os desenhos porque os museus de Belas-Artes sempre tiveram um departamento de desenho e papel, que estava ao serviço da investigação e do estudo. Creio que nos últimos anos o desenho expandiu-se completamente e os colecionadores compram desenhos como compram outros suportes, sem refletir muito sobre se é desenho ou outra coisa” sustenta. A organização não adianta valores de peças individuais, adiantando que estes variam entre os 400 e os 40 mil euros.

Entre os portugueses representados, destaque para Helena Almeida, Júlio Pomar, Pedro Cabrita Reis ou Julião Sarmento – “têm uma prática de desenho muito importante”, acentua. Mas há mais no Drawing Room Lisboa, que na edição 2018 teve cinco mil visitantes, número que, obviamente, a diretora quer superar.

Nesta edição estão sete países e 25 galerias de arte representados. Há um foco no desenho argentino, com curadoria de Deborah Reda, uma exposição da coleção PLMJ, comissariada por João Silvério, com arte dos países lusófonos e um ciclo de debates sobre colecionismo (Talks Millenium). No dia 11, às 10.00 decorre a mesa redonda no Museu Nacional de Arte Contemporânea sob o tema Desenho e Vanguardistas Históricos. Participam Inmaculada Corcho, diretora do Museu do Desenho ABC, Madrid e Irina Zucca Alessandrelli, curadora Collezione Ramo, Milão, com a moderação de Emília Ferreira, diretora da instituição. A conversa terá como mote a atividade curatorial em torno da disciplina de desenho nas instituições convidadas e terminará com uma visita guiada à exposição Sarah Affonso. Os dias das pequenas coisas, ali patente. Vai ainda decorrer o primeiro encontro de iniciativas europeias de valorização do desenho, na Central Tejo do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT).

A aposta do papel na era digital é motivo de sorriso para Mónica Alvarez Careaga: “Há uma frase de Umberto Eco que diz que o triunfo do carro não anulou a bicicleta e na arte contemporânea as manifestações desmaterializadas não anularam o desenho”, sublinha defendendo que em Portugal há uma valorização do desenho muito importante dando como exemplos a Fundação Carmona e Costa (“está muito vocacionada para o desenho”) e a Casa da Cerca, em Almada – “que é um museu que trabalha especificamente com desenho”.

Drawing Room Lisboa
De 10 a 13 de outubro
Sociedade Nacional de Belas Artes
Rua Barata Salgueiro, 36
Lisboa
Bilhetes: 5 euros
Programação aqui.

(Notícia editada às 11.30, com correção da referência à mesa redonda que vai decorrer no MNAC)