Como o Porto se tornou sinónimo de arquitetura

Alexandre Alves Costa, Sérgio Hernandez, José Grade, Alcino Soutinho, Fernando Távora e Álvaro Siza na Acrópole de Atenas em 1976

Quando a revolução chegou, eles estavam nas ruas à espera. Um grupo de arquitetos que criou uma nova maneira de ver os lugares.

Texto de Lina Santos

A fotografia, com a Acrópole em fundo, é de 1976 e tornou-se ícone: o arquiteto Fernando Távora com os desenhos na mão, ladeado pelos arquitetos Alexandre Alves Costa, Sérgio Hernandez, José Grade, Alcino Soutinho e, do seu lado esquerda, o arquiteto Álvaro Siza. Companheiros de profissão, de ideias e ideais, de viagens. Amigos.

“Alguns dizem que eles estão à frente do Pártenon. Outros que eles estão a deixar o Pártenon para trás”. Hélder Casal Ribeiro, professor da Faculdade de Arquitetura do Porto, explica as muitas leituras daquela imagem de viagem, uma das várias que os professores da escola foram fazendo.

O que os une é uma revolução: mudanças na maneira como se ensinava a arquitetura e como abordá-la, lideradas por alguém que não aparece na fotografia – Carlos Ramos, arquiteto e pedagogo, que dirigiu a Escola Superior de Belas-Artes do Porto entre 1952 e 1967, renovando o corpo docente, chamando arquitetos como Fernando Távora, frequentador do CIAM -Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna.

Hélder Casal Ribeiro nota a importância desta figura. Um homem do Porto (1897-1969), que trabalha e se afirma em Lisboa e que é preterido na escola de Arquitetura da capital a favor de Cristino da Silva. É convidado depois para dirigir a escola do Porto, porque “se reconhece que é o melhor”, diz o professor. “O Porto tem muito essa tradição”, nota. Acrescem dois fatores ao êxito de Carlos Ramos, segundo o docente: o facto de a Escola Superior de Belas-Artes estar na capital e bem próxima da António Maria Cardoso, sede da PIDE, e Carlos Ramos, “um homem envolto em polémica por ser moderno mas fazer compromissos com o regime.”

Quando Hélder Casal Ribeiro fala de uma “Escola do Porto” foge de uma definição que seja sinónimo de um estilo – casas brancas e mármores, traços da obra de Álvaro Siza. A Escola do Porto vem da tradição de a escola ter o nome da cidade e é “uma metodologia”, “uma maneira de decompor e abordar os problemas”.

Ainda nos anos 1940, Fernando Távora, um dos professores chamados por Carlos Ramos, escreve um texto acerca do “problema da casa portuguesa” que vem dar pistas fortes sobre o futuro da arquitetura que saía da Universidade do Porto. “O seu problema não são os motivos regionalistas, mas o ser uma arquitetura que tem de incorporar os valores universais, o tempo em que se faz“, nota Hélder Casal Ribeiro. Um exemplo: “A arquitetura responde aos problemas do Porto, mas não é do Porto.”

E daí, Casal Ribeiro faz o salto global, explicando por que razão Siza é Siza em Berlim ou Haia (duas cidades para onde desenha blocos residenciais). “Ele é mais alemão do que os alemães, mais holandês do que os holandeses.” Acrescenta: “Ele sintetiza, na escrita e no desenho, estas ideias.”
É nos bancos da academia que a história se escreve, mas não da forma mais ortodoxa.

“Esta história começa com a saída de Carlos Ramos da direção do curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes [ESBAP] em 1967, com a demissão coletiva do corpo docente por questões de indefinição contratual, e com o aumento da contestação ao regime sob influência do Maio de 68 e da revolta estudantil de 1969, que empurraram o curso de Arquitetura da ESBAP, sob a aparente abertura da “primavera marcelista”, para o chamado “regime experimental” – uma reforma que os jornais da época iriam apelidar de “inovadora” e “radical” pela gestão paritária entre alunos e professores, pela ausência de cadeiras no sentido convencional do termo, pela ausência de faltas, de horários, tudo isto em prol da integração de várias matérias estruturadas em torno de um núcleo central: o projeto de arquitetura (tido num âmbito alargado)”, escreve o arquiteto e professor Pedro Bandeira na sua obra Escola do Porto: Lado B.

Entre aquela que vem a ser conhecida como “Escola do Porto”, e que ganha nome e fama nos anos 1980 e 90, e a distinção máxima com a atribuição a Álvaro Siza do mais importante prémio de arquitetura, o Pritzker, em 1992, o seu mestre, Fernando Távora, é referência. Pedro Bandeira considerou que teve um papel estruturante no curso de Arquitetura da ESBAP. É um pilar dentro da escola – e a sua presença na fotografia tirada na Acrópole, em lugar central, não é casual.

É Távora que, por exemplo, chama Álvaro Siza para trabalhar com ele no ateliê. Tão cedo como 1953, Álvaro Siza está a fazer desenhos para o projeto do Mercado Municipal de Santa Maria da Feira. Nos anos 1960, desenha a piscina da Quinta da Conceição, outro projeto de Fernando Távora (muito influenciado pelas suas viagens). Ainda a trabalhar com o mestre, desenha a Casa de Chá da Boa Nova, uma proposta muito diferente daquela que Fernando Távora tinha para aquele lugar, mas que ele deixa o discípulo executar. “Muito cedo Távora o deixa assinar os seus projetos.”

Ainda Pedro Bandeira sobre estes arquitetos: “A Revolução de 1974, e o consequente processo SAAL [Serviço Ambulatório de Apoio Local], encontraram os arquitetos na rua: manifestações, ocupações e o “direito à cidade”. A escola continuou “vazia”.” Esse grupo andou pelo país e assinou projetos marcantes que perduram nas cidades. Como, no Porto, o Bairro do Leal ou de São Victor, em Lisboa, a Quinta do Mocho e a Curraleira, e, em Lagos, a Meia-Praia. Seriam depois ampliadas ao resto da cidade e, com Siza, ao resto do mundo.

Não é por acaso, sustenta Hélder Casal Ribeiro, que os caminhos foram esses e “que 90% dos projetos do SAAL foram feitos a norte por professores e alunos da Escola”. “Muitas disciplinas da Escola antes da Revolução consistiam em fazer levantamentos das condições nas ilhas, sociológicos.” Quando a Revolução chegou, eles já conheciam. E a metodologia já lá estava: “Para nós, fazer um projeto é como fazer uma autópsia. Abrir um corpo e ver como funcionam os órgãos.” Podendo, finalmente, resultar em obras tão distintas como as dos arquitetos Álvaro Siza ou Eduardo Souto de Moura. Ambos Pritzkers e os únicos oriundos de uma mesma escola.