Co-living, cestaria, sustentabilidade: o futuro feito com estas 30 mãos

Termina esta sexta-feira o Summer Camp que juntou jovens, designers e mestres artesãos em torno da cestaria no Museu de Arte Popular, em Lisboa. Daqui nasceram várias peças de design contemporâneo, a partir de técnicas tradicionais portuguesas. Como a cadeira-concha para encontrar momentos de pausa entre a confusão.

Reportagem de Marina Almeida
Fotografias de Orlando Almeida/Global Imagens

A polaca Weronika Banas nunca tinha visto as peças cestaria em vime de Fernando Nelas Pereira ou o mobiliário de bunho de Manuel Ferreira. Iany Gayo, portuguesa, já. Mas nunca tinha “falado” com estes materiais. O diálogo foi intenso e proveitoso. Estão no centro da luminosa sala do Museu de Arte Popular, em Lisboa, a testar uma espécie de ninho, feito nestas duas técnicas. Deitam-se neste refúgio que balança, que permite contemplar, parar os dias: é o resultado do trabalho que fizeram com os dois artesãos. Têm a base da peça feita. Trabalham agora na finalização da peça, que ainda não foi batizada. “Não, ainda não temos nome”, riem-se. Falam em inglês e na língua universal dos crafts, feita de gestos e materiais.

Estamos a poucos dias do fim de três semanas de Summer School de cestaria que termina esta sexta-feira. A iniciativa, promovida pelo Ministério da Cultura (Direção Geral do Património Cultural) e pela Fundação Michelangelo, instituição suíça empenhada na preservação dos ofícios tradicionais na Europa, começa a dar os primeiros frutos. Junta dez jovens designers e cinco artesãos. Juntos, puseram as mãos nas técnicas tradicionais de cestaria portuguesa, e desvendaram-lhe novas formas.

Helena Ambrósio é a curadora de design deste campus pioneiro e foi ela quem lançou o mote: “O tema é share living/coworking. O grande desafio é trazer inovação na cestaria, para toda a gente se sentir integrada. Usei o [método criativo] Double Diamond do Design Council, mostrando mais o material no início. Começámos com os alunos a mexer nas matérias primas, depois levei-os a ver espaços de co-working, como a Lx Factory. Os alunos fizeram um brainstorm e escolheram as cinco questões favoritas, mostrámos aos artesãos e toda a gente teve oportunidade de ter ideias: como é a que cestaria pode criar espaço dentro do espaço?” A questão foi lançada e as respostas estão ali a nascer. Helena é designer de produto, formada pelo IADE. Vive em Londres desde 2002 e já trabalhou para marcas como a Alessi, Absolut Vodka ou Hugo Boss. Também tem veia de artesã, e criou peças de cerâmica ou faiança. “Eu rapidamente pus os grupos dentro dos espaços dos artesãos e começou tudo a desenvolver ideias. Quando se está a fazer inovação nunca se sabe o que vai acontecer, há sempre um período inicial de angústia… Qual é a solução?, não se sabe, e quando as pessoas começam a fazer experimentação há aquela luz ao fundo do túnel e é preciso que tenham espaço para crescer. E que tenham ownership [sentimento de pertença] em relação à peça”, diz Helena.

“Estamos a trabalhar com materiais muito sustentáveis. São técnicas e materiais há muito conhecidos, mas já esquecidos, com o contacto com a natureza, com a peça, o contacto das mãos, encontramos esta meditação em paz. O vime é mais seguro e forte, é a nossa base. O bunho é muito suave, muito natural, agradável ao toque. Com esta peça quisemos mostrar a beleza do craft e como pode aliviar a tensão”, diz Weronika.

Fosse qual fosse o caminho, o método, as palavras chave, a língua é a mesma: a dos crafts. Quem o verbaliza é Weronika, mas sente-se por toda a sala. Ao nosso lado segue a azáfama criativa. A roda está em marcha. As peças ganham forma. Umas mostram-se mais que outras. As duplas de trabalho são constituídos por um jovem português e um internacional (há cinco nacionalidades representadas), que agora trabalham mais com um artesão, depois com outro. Algumas peças cruzam mais do que uma técnica de cestaria. Num placard lê-se around the body, privacy, nest, shell, palavras soltas, os nomes das técnicas bunho, vime, junça, empreita, baracejo – em português. De Portugal para o mundo, apetece dizer quando se veem os mestres Manuel Ferreira e Fernando Nelas a ajudar a construir um ninho de meditação para um espaço de co-living.

Fernando Nelas Pereira não consegue estar com as mãos quietas. A inconfidência é de Helena Ambrósio, mostrando os inacreditáveis anéis de vime feitos pelo mestre do vime nas horas “livres”, que põem minúsculas cestas em alguns dedos que por ali andam. Aprendeu “no meio de dois velhotes, a olhar, a fazer” aos onze anos fez-se cesteiro para toda a vida – há 54 anos. É natural de Gonçalo (Guarda), a freguesia do vime, e ao contrário de muitas histórias, foi ele quem ensinou o pai, que toda a vida fora agricultor, aos 50 anos. O que mais gosta é de criar novas peças, como o biombo que pensou com a portuguesa Francisca Patrocínio (estuda escultura na Faculdade de Belas Artes do Porto) e o francês Neils Nijman (estuda design de produto na École Boulle, em Paris). O trio debruça-se sobre a peça, que começou por um protótipo, agora ganha escala – e coloca vários desafios à concretização. Junta-se-lhes Fatima Azzahra, da associação Passa ao Futuro – uma das parceiras do campus, a par da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva e o The Home Project Design Studio.

A luz, a forma como a cestaria pode influenciar a luz natural, foi o fio condutor de Francisca e Neils. “Quisermos criar uma divisão que se possa abrir e fechar”, diz ele, “adaptável à pessoa que o usar, se quiser mais luz abre o objeto, se quiser menos, fecha”, completa ela. O mestre Fernando diz que os jovens são bons alunos, perfeccionistas, mas sempre vai dizendo que está num museu e não na sua oficina, onde tem todos os materiais e utensílios à mão.

Ali bem perto, no chão, estão algumas peças de junça despenteada – peças deixam partes da planta na sua forma natural. Ana Abrunhosa é a formadora que traz a arte da junça da freguesia de Beselga, Penedono, até ao Museu de Arte Popular: “estou aqui mais em representação de todas as pessoas que trabalham em junça da Beselga e já são idosas. O mestre Ilídio já tem 81 anos e vir aqui era complicado. Não me considero mestre”. Reconhece que peças como aquela que ali se desenha, não seriam possíveis na abordagem tradicional. Mariana Campos (formada em design de equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa) e Emma Cogné, francesa a estudar design têxtil na Bélgica, estão a dar forma a um tapete com vários volumes, com tufos de junça e almofada, um tapete para estar no meio dos espaços de convívio partilhado com reserva, conforto e contacto com a natureza. Emma diz que a sensibilidade da fibra foi determinante para chegar a esta ideia. “Não é comum. Agora muitos objetos são em plástico…”. Mariana acrescenta: “Pensámos num espaço que permitisse criar o nosso momento num local onde muitas pessoas estão a fazer muitas coisas. É como criar uma barreira suave. E trazer natureza para a cidade”.

“Esta técnica é amazing”, diz Emma. E não é que seja fácil nem isenta de algum esforço, mas a formadora não esconde a satisfação: “estou muito orgulhosa porque elas conseguiram logo à primeira fazer uma técnica que as pessoas demoram muito a aprender.

A sustentabilidade do processo é o foco desta dupla – tal como de todas as outras equipas que ali estão. Na realidade, nem parece uma preocupação, parece uma naturalidade: não lhes passa pela cabeça que o futuro seja de outra forma. E as fibras naturais são um material perfeito. “Esta técnica é amazing”, diz Emma. E não é que seja fácil nem isenta de algum esforço, mas a formadora não esconde a satisfação: “estou muito orgulhosa porque elas conseguiram logo à primeira fazer uma técnica que as pessoas demoram muito a aprender. Não estando a 100% está muito bem!” Manusear as tranças implica alguma destreza. Cosê-las com fio do Norte, várias picadelas nos dedos. “Passamos os dias a tirar coisas das mãos” diz Mariana, explicando que as tonalidades das peças que estão em cima da mesa variam porque umas já estão secas (ficam acastanhadas) e outras ainda húmidas para serem trabalhadas (e estão verdes). Sem cerimónia, debruça-se sobre a obra em curso: “Ana, vamos passar aos triângulos”. “Boa ideia”.

Curiosa ironia, Isabel Martins traz um avental com o ameaçado lince da Serra da Malcata. Vem do Sabugal dar a aprender o baracejo, a rara cestaria que por vezes parece filigrana, de tão delicada. Aprendeu há cinco anos, quando regressou à sua terra natal e quis descobrir algo novo – mas parece que toda a vida o fez. Reencontrou uma arte que apreciava desde nova e aprendeu com D. Arminda, a última artesã de baracejo de Sortelha.

Estes cestos são de uma delicadeza e movimento surpreendente. Na Summer School está agora a trabalhar com a portuguesa Denise Santos (design de ambiente na ESAD, Caldas da Rainha) e a italiana Francisca Miotti (design têxtil) numa das peças de um ambicioso sistema de sinalética que as duas jovens idealizaram para os espaços partilhados. “Decidimos focar-nos nas propriedades táteis dos materiais. Estamos a trabalhar com todos os mestres artesãos. Com Isabel trabalhamos o baracejo”. Estão a fazer um tubo têxtil, com diferentes formas. “Cada forma simboliza uma direção diferente”, explica a italiana.

Num canto da sala, quase a querer passar despercebida, está Vanessa Flórido. A mestre trabalha a palma (empreita) e está numa corrida contra o tempo, a acabar outra das peças da sinalética do duo luso italiano. Mostra-nos outras maravilhosas peças produzidas com duas técnicas de cestaria, ensaios para o que ali se faz. Deixamo-la trabalhar. Faltam poucos dias para o fim deste campus, todos os minutos contam. Em outubro, as peças feitas a 30 mãos vão juntar-se à cestaria tradicional portuguesa numa grande exposição, que vai relançar o Museu de Arte Popular.

Paulo Costa, diretor do MAP e do Museu Nacional de Etnologia (a gestão é conjunta) abriu-nos o apetite para esse momento, mostrando-nos vários cestos das coleções dos dois museus que, na sala ao lado, servem de inspiração para os jovens designers. Defende que “este tipo de iniciativas em torno do artesanato devem ser centradas no Museu de Arte Popular”, que tem um acervo ímpar e precisa de condições para funcionar.

Quem veio para a escola de Verão interessado na palma foi o algarvio Gonçalo Gama (ESAD, Caldas da Rainha). Mas é de volta da junça (com supervisão de Ana Abrunhosa) que o encontramos com a cipriota Alexandra Pambouka. Começaram por pensar em criar um pórtico que se transformou numa mesa de café portátil, com espaço para cabos e telemóveis. O futuro e o passado caminham juntos.