Cante alentejano em Washington DC e peixes no elevador: eis o festival Terra sem Sombra

Cantadores da Aldeia Nova de São Bento apresentam-se nos EUA (DR)

O Rancho dos Cantadores da Aldeia Nova de São Bento faz-se ouvir hoje nos Estados Unidos. É o aquecimento do Festival Terras Sem Sombra, que terá um programa recheado: um concerto para pianista e ornitólogo ou peixes que andam de elevador, por exemplo.

Texto de Marina Almeida

Atravessaram o oceano para cantar num dos santuários de músicas do mundo. Os 26 cantadores da Aldeia Nova de São Bento, Serpa, apresentam-se esta segunda-feira no The Kennedy Center, em Washington, EUA, numa atuação transmitida para todo o mundo pelo canal de streaming. É um arranque ruidoso para o festival Terras Sem Sombra, que decorre de 26 de janeiro a 7 de julho.

Quem quiser ouvir estes embaixadores do cante alentejano (e não estiver perto do Millenium Stage do Kennedy Center), pode acompanhá-los online a partir das 18.00 (23.00 em Lisboa). «Isto tem um grande significado. O Kennedy Center é um dos santuários da música do mundo, é o santuário da música nos Estados Unidos», diz José António Falcão, diretor do festival. «Uma coisa é classificar o cante como Património da Humanidade, agora é necessário que ele se globalize», diz o responsável pelo Terras Sem Sombra, que integra a enorme comitiva que, por estes dias, anda pelos EUA, o país convidado desta edição.

«Uma grande preocupação que temos tido no Terras sem Sombra é internacionalizar o cante e dar palco à possibilidade de ser conhecido lá fora. Fizemo-lo em 2016 em Madrid, em 2017 em Sevilha, em 2018 em Budapeste e agora não há um palco maior para a música tradicional do que este», diz o diretor do festival, acentuando a «audiência de milhões de pessoas» do canal de streaming do Kennedy Center.

Este será um dos momentos altos do Festival Terras sem Sombra, que este ano cumpre a sua 15ª edição, com o lema Sobre a Terra, sobre o Mar – viagem e viagens na música (séculos XV-XXI).

Na comitiva do festival alentejano que vai aos EUA (numa parceria com a Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento) estão não só os autarcas das seis câmaras municipais envolvidas no Terras sem Sombra, bem como responsáveis de algumas das principais empresas da região, como o Porto de Sines, EDIA, Vale da Rosa, Ovibeja ou Adega da Vidigueira. «A cultura abre portas à economia», sublinha José António Falcão. No périplo americano estão previstas mais atividades, como uma oficina de cante alentejano na chancelaria da embaixada portuguesa em Washington. «Começamos com uma prova de vinhos que é para ficarem logo no ambiente certo».

Música, música. E património

De regresso ao Alentejo, a partir de dia 26 o festival abre uma programação variada e abrangente, que passa não só pela música, como pelo conhecimento do território através do património e da gastronomia. «Isto é uma temporada artística, que vai desde a ópera até à música sinfónica, ensembles, música de câmara, etc. Nós no fundo propomos uma temporada artística ao Alentejo, que começa em janeiro e acaba em julho».

Mas o festival, organizado pela associação Pedra Angular, não se fica nas fronteiras nacionais e durante um mês a programação vai a Espanha, a convite da junta da Extremadura, com concertos em Valência de Alcântara e Olivença.

Os Spelman College Glee Club apresentam-se a 26 de janeiro, na abertura do festival na Igreja de São Cucufate

Entre os destaques da programação, os incontornáveis Kronos Quartet (6 de julho no Castelo de Sines), que há muito a organização do festival tentava trazer a Portugal e que este ano se concretizou graças a uma preparação feita com dois anos de antecedência. José António Falcão coloca o foco nos agrupamentos musicais de primeira ordem e nos Spelman College Glee Club (26 de janeiro, Igreja de São Cucufate, Vidigueira). «É um grupo que tem ganho todos os prémios, é um grupo que tem aparecido muito associado ao presidente Obama, cantavam muito frequentemente na Casa Branca, e que o maestro titular é uma lenda viva nos EUA, que é o Kevin Johnson», refere.

Ana Telles, pianista, apresenta-se com o ornitólogo João eduardo rabaça (FOTO: Manuel Luís Cochofel)

Outro dos sublinhados é o inusitado concerto À Vol d’Oiseau: Aves e Biodiversidade no Repertório Pianistico – do Barroco ao Presente. «É uma pianista e um ornitólogo que se juntam para fazermos este projeto e as aves que se juntam são aves da nossa região», explica o diretor do Festival. A pianista é Ana Telles e o ornitólogo é João Eduardo Rabaça e apresentam-se a 9 de fevereiro em Serpa.

O organista da Sagrada Família vai tocar em Elvas (FOTO: Igor Studio)

A 27 de abril, o organista titular da basílica da Sagrada Família de Barcelona, vai tocar o órgão da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Elvas. Juan de la Rubia, considerado uma super estrela da organística europeia, não quis perder a oportunidade de tocar naquele magnífico órgão alentejano.

Entre os vários vários desafios de divulgação do património, o de amassar pão na Vidigueira (26 de janeiro às 15.00), que tem sete padarias que ainda fazem o pão de forma artesanal, com cuidado com o produto. «E isso é muito importante para a saúde, por isso vamos ter a professora Olga Amaral que nos vai ajudar a perceber o que é um pão saudável», refere o diretor do festival.

Na barragem do Pedrógão, que faz parte do grande Lago de Alqueva, há um elevador que permite aos peixes dos rios alentejanos seguirem o seu curso natural. E os visitantes do Terra sem Sombra vão poder acompanhar este momento da viagem dos peixes entre o rio Ardila e o Oceano Atlântico (27 de janeiro às 9.30), em grandes cestos.

E ainda, uma visita ao Porto de Sines para conhecer as aquaculturas de vanguarda que lá estão instaladas (dia 7 de junho, às 9.30) ou uma noite de nariz no ar a ler o céu (8 de junho, 21.30, Barrancos).

Mas há mais. O programa é extenso. O melhor é não o perder de vista.

O Terras Sem Sombra também vai fazer pão (DR)