Ayres Gonçalo, o alfaiate que vestiu o Príncipe Carlos e que aprendeu tudo com o avô

Porto, 10/09/2018 - Entrevista Ayres Bespoke Tailor, alfaiataria do Porto. Ayres Gonçalo herdou a arte de alfaiate do avô, Ayres Carneiro da Silva. Ayres Gonçalo; Ayres Carneiro da Silva. (João Manuel Ribeiro/Global Imagens)

No número 22 da Praça D. Filipa de Lencastre, no Porto, o amor pela alfaiataria passa de geração em geração. Com uma carreira de mais de setenta anos, Ayres Carneiro da Silva ensinou tudo o que sabe ao neto, Ayres Gonçalo, que até já fez um fato para o príncipe de Gales. O mais pequeno, Pazzi, já lhes segue as pisadas. Ou os moldes.

Texto de Patrícia Tadeia
Fotografias de João Manuel Ribeiro / Global Imagens

Corria o ano de 1929. Um dia depois do Natal, a 26 de dezembro, nascia, no seio de uma família do Porto, o mais novo de 11 irmãos. O homem que viria a vestir António de Oliveira Salazar. «Como é que ele era? Só aproveito as qualidades das pessoas. Era amigo do povo à sua maneira. Naquela altura tinha de ser um ditador sério… Vivia-se o fascismo», atira Ayres Carneiro da Silva.

Quando chegamos ao ateliê – pequeno e acolhedor –, está na varanda a fumar. Aos 88 anos, com setenta de carreira, tem uma saúde de ferro, e olha para trás com o orgulho de ter fundado a Ayres Alta Costura. De ter vestido artistas, atletas, políticos e banqueiros. E de ter passado a paixão pela alfaiataria ao neto, Ayres Gonçalo.

«Desde os 4 anos que eu passava muito tempo no ateliê. Fui começando a coser, a cortar e a riscar e a paixão foi crescendo», confessa o alfaiate de 37 anos que fundou a Ayres Bespoke Tailor. Mas até lá chegar correu o mundo. Também o avô viajava muito. Longas horas até Itália, de carro, de onde trazia vários materiais. Em casa deixava a esposa, a costureira Maria Odete. «Ela é de Braga, mas um dia foi ver um jogo entre o FC Porto e o SC Braga e não sei o que aconteceu. Quis mudar-se para o Porto», conta o alfaiate que jogou voleibol, basquetebol e até futebol no Rio Ave. Mas é também o FC Porto o clube do seu coração: «Todos os dias leio O Jogo… há quem diga mal do Pinto da Costa. Eu não digo mal de ninguém.» Afinal, era amigo de infância de José Maria Pedroto, que lhe abriu as portas a clientes no mundo do futebol.

Ayres Gonçalo foi crescendo com o sucesso do avô, mas um dia quis mudar: «Trabalhar com a família é complicado. Levávamos os problemas da loja para casa até que um dia a minha avó nos proibiu de falar de alfaiataria à mesa. Eu tinha 20 anos e queria conhecer a alfaiataria mundial e saber o que era não ser neto do patrão. Para se ser patrão, temos de saber o que é ser empregado.»

E assim foi. Em 2004, matriculou-se na Sociedad de Sastres de España. «Foi um curso intensivo de um ano. Como precisava de ganhar dinheiro para sobreviver, comecei a bater à porta dos alfaiates e fui trabalhar com o melhor alfaiate de Madrid, Pedro Muñoz», recorda.

Dois anos depois mudou-se para Londres, onde trabalhou na Gieves & Hawkes. «Era aprendiz, mas sentia-me a crescer diariamente. Pelas minhas mãos passavam fatos de seis mil euros», diz Ayres Gonçalo.

Pela sua mão passou também, em 2009, o fato do príncipe Carlos de Inglaterra. «Nesse dia entrámos às 06h30. Antes de chegarem, tivemos lá uma brigada de minas e armadilhas», recorda. Nessa época, contou com os ensinamentos do mestre Andrés Gomez, que só teve quatro aprendizes na vida. Um deles, o designer de moda Alexander McQueen.

De Londres seguiu para Nova Iorque, e até Hong Kong ao serviço da Michael Andrews Bespoke. «Mas sentia falta do Porto. Queria aproveitar o máximo tempo de vida com o meu avô. Já voltei há sete anos e o meu avô continua cá e para durar», diz.

«Era aprendiz, mas sentia-me a crescer diariamente. Pelas minhas mãos passavam fatos de seis mil euros»

Ao mesmo tempo, o Ayres avô mostra uma fotografia da família numerosa: «Sou o homem mais feliz do mundo, tenho uma família grande. Consegui o que queria. Tenho dez netos e doze bisnetos.» Um deles é Infante da Paz – carinhosamente chamado de Pazzi pelo pai.

Aos 4 anos passa também ele horas no ateliê. Já sabe manusear algumas tesouras, sempre sob o olhar atento do pai e do bisavô. «Esta tesoura foi comprada ao alfaiate do rei D. Carlos por duzentos escudos», recorda o bisavô, que começou a cortar e a coser aos 12 anos.

Hoje é um ofício cada vez mais raro. E por isso o neto avança que quer abrir uma escola de alfaiataria, porque afinal deve tudo na vida ao avô. «Não fui um adolescente fácil. Era mal comportado. E o meu avô deu-me dois puxões de orelhas. Fez-me ver que tinha de seguir um caminho na vida se quisesse ser alguém e ter família. Foi a maior lição que ele me deu», conclui.