As versões modernas do santo de Lisboa

Um das ilustrações de Nuno Saraiva, em que o Santo António prega às sardinhas antes de as comer, e o inserparável menino com o abanico.

Num dia de inspiração divina, Nuno Brandão criou um santo monocromático que se tornou um sucesso. Nuno Saraiva fez a primeira ilustração em 2009 e o santo nunca mais teve compostura. Ninguém sabe exatamente como era o homem nascido em Lisboa a 13 de junho de 1191. Por isso, pode ser o que a imaginação ditar e correr o mundo na letra de uma canção.

Texto de Marina Almeida

Em três tempos Nuno Saraiva dá forma a um santo em correria sobre o globo terrestre. Também num momento, Nuno Brandão deu a volta à vida: estava à porta da loja, em frente à estátua de Santo António, na Sé de Lisboa, quando decidiu criar uma “figurinha”. Inventou os santos monocromáticos e não parou de os pintar. Breve viagem ao santo António contemporâneo, da ilustração ao design, passando pela música.

Maria Bethânia canta “Que seria de mim meu Deus/ sem a fé em António”. O Santo António, este Santo António nascido em Lisboa que se espalhou pelo mundo, há de ter sido um tipo fixe. Se não foi, passou a ser. Santo casamenteiro, mas também dos objetos perdidos, com quem o povo se zanga e volta a reconciliar-se, vira-o para a parede ou tira-lhe o menino dos braços se não cumpre o pedido, volta ao lugar quando se fazem as pazes. Bethânia, brasileira, canta-o como um homem divino sem pedestal. Esta dimensão humana é uma das suas marcas e está muito presente nas suas representações. Na realidade não se sabe como era fisicamente, imagina-se novo porque viveu apenas 35 anos, com as vestes franciscanas, um livro e o menino ao colo. Mas ainda resta muito espaço para a imaginação.

Para o ilustrador Nuno Saraiva o muito que há ainda para aprender sobre o santo, é estimulante. Já o desenhou inúmeras vezes, e não se cansa dele. “O Santo António não é uma figura absoluta, os biógrafos ainda não esgotaram todas as linhas. Pode-se pensar e construir. Estou agora a trabalhar para o troféu das Marchas de Lisboa. No troféu vencedor, que eu não vou revelar como é que se vai construir, mas é uma coisa maluca que estou a pensar fazer, e na base da escultura conto a história da viagem do Santo António e deparei-me com uma série de coisas que não sabia”.

Em dez anos já o desenhou de muitas formas. “Este meu santo acaba por ser um bocado banda desenhada. Podia ser um herói ou um anti-herói. No meu traço não é um herói pleno, é um bocado trapalhão”, diz. E foi assim desde o primeiro desenho, de 2009, para a ronda das tascas com que a associação Renovar a Mouraria queria então dar a conhecer o bairro. “Procurei fazer um Santo António marginal porque é assim que eu o vejo, no seu tempo. É um jovem de boas famílias, um pequeno burguês da época, que decide ir à aventura em vez de seguir um rumo mais eclesiástico”. E naquele desenho, lá está ele a equilibrar um copo de vinho, de tasca em tasca, até à última – em que deixa o menino para trás.

Não há limites para a imaginação, nem para a boa disposição. Nuno anda de volta do santo, que vai agora ganhar três dimensões no troféu das marchas.

Nuno Saraiva desenha a lápis azul sobre uma folha de papel castanha. Depois cobre o traço inicial a tinta preta. Volta agora ao santo padroeiro para o troféu das marchas, mas já cobriu Lisboa de ilustrações em anteriores edições das Festas de Lisboa. Em 2015 fez o santo a pregar às sardinhas que se preparava para comer (numa alusão do sermão aos peixes). É sempre uma figura bem-disposta, humanizada, em que a aureola não é um acessório divino. “Ele tem sempre uma relação direta com a auréola. A auréola não é uma luz que está sobre a cabeça dele e o identifica como um santo. É realmente um objeto com volume, físico, e ele quando vê uma bela mulher a passar pega na aureola e faz um gesto como quem tira o chapéu, de vénia”, conta o ilustrador. Aponta outro desenho, posto sobre uma das mesas do atelier. “Por ocasião do mundial de futebol fiz um santo que está a segurar uma baliza que é um arco das marchas. E pus o menino no ombro dele a dar toques na auréola…”

Não há limites para a imaginação, nem para a boa disposição. Nuno anda de volta do santo, que vai agora ganhar três dimensões no troféu das marchas. Nunca o representou assim. Mas se a ideia de escultura pegar, só lhe interessa se a sátira estiver lá. Não quer saber do politicamente correto nem do bonitinho.

A história de Nuno Brandão parece quase um milagre de Santo António. Em 2005 o designer estava desempregado e abriu uma loja em frente ao Museu Antoniano e à Igreja de Santo António, na Sé – epicentro do culto antoniano. Ali fazia atelier e tinha exposição e venda de artigos de design de novos criadores. “Há um dia em que eu venho um bocado à porta apanhar ar, e vejo as pessoas de volta da estátua do Santo António. Pensei, ‘tanta gente, se eu fizesse uma figurinha se calhar vendia”. Foi a fórmula mágica.

Nesse fim de semana visitou umas olarias no Oeste e trouxe uns santos antónios em barro, que pintou de uma só cor. Os primeiros quatro ou cinco que pôs na loja, venderam-se num ápice. Voltou a buscar mais uma dezena, pintou-os, igual destino. Depois começou a comprar em grandes quantidades, e passava dias e noites a pintá-los. Variou as cores. Vermelho, verde, azul, rosa, o santo cobriu-se de cor da cabeça aos pés. Esgotavam. Nuno Brandão percebeu que tinha ali um filão. Procurou um novo fornecedor, criou uma embalagem, o negócio ficou mais sério.

Também o Turismo de Lisboa lhe fez a encomenda de duas peças excecionais, com dois metros de altura, cor de rosa, para levar a uma feira em Madrid. Nuno entretanto perdera-lhes o rasto e ficou satisfeito quando soube do seu regresso ao átrio do Museu de Santo António.

Os primeiros clientes foram portugueses e ninguém estranhou a nova indumentária do santo. “Como era uma loja mais alternativa, as pessoas acharam que podia ser de uma cor só”. Agora já muitos turistas o levam para casa. O designer de 47 anos conta que chegou a ter gente chocada, com o santo pintado de cores berrantes. A prova de que nem é preciso fazer muito para perturbar a ordem pública. Seja como for, o negócio cresceu, o santo monocromático passou a estar à venda em várias lojas, como a do aeroporto de Lisboa – e Nuno, obviamente deixou de os pintar à mão. Atualmente está disponível em 16 cores diferentes e em três tamanhos – 14, 24 e 45 centímetros, que custam 13, 15 e 25 euros respetivamente.

Diz que santo António não lhe salvou a vida mas deu-lhe “estabilidade financeira”. A Câmara Municipal de Lisboa tornou-se uma grande cliente, quer para as vitórias do Benfica ou do Sporting nas competições desportivas (e saem santos encarnados ou verdes para as equipas em festa) ou para os casamentos de Santo António (no ano passado foram cor de rosa). Também o Turismo de Lisboa lhe fez a encomenda de duas peças excecionais, com dois metros de altura, cor de rosa, para levar a uma feira em Madrid. Nuno entretanto perdera-lhes o rasto e ficou satisfeito quando soube do seu regresso ao átrio do Museu de Santo António.

Já não tem a loja da inspiração divina – “as melhores ideias surgem assim, às vezes perco horas a pensar e nada” -, mas continua a vender o Santo António através do instagram e do facebook da Goma Portugal, e em lojas por todo o País. Entretanto criou a Nossa Senhora de Fátima, mas o santo lisboeta continua a ser o rei das vendas. Já vendeu milhares, nem sabe quantos. Para além das 16 cores da atual paleta, pode criar peças por encomenda.

Em música, no colar ou em versão sardinha

A representação contemporânea do Santo António também passa pela música, e a faceta humanizada também aqui se reflete. A brasileira Maria Bethania canta-o, Gilberto Gil chama-o para a festa no Rio de Janeiro em São João Carioca (2012).

A alusão ao santo é aliás feita por vários músicos, em vários momentos, dos The Pogues (Rain Street, 1990) a Madonna (I’m a Sinner, 2012), entre outros. Na ourivesaria também há um Santo António modernaço, da autoria da Portugal Jewels.

E até em forma de sardinha – a resposta dos designers Ana Gil e António Caetano ao concurso que a EGEAC lança anualmente desde 2011, desafiando toda a gente a desenhá-las. O santo em forma de sardinha ganhou, em 2016, lugar no cardume de faiança da Bordallo Pinheiro e mantém-se entre as mais procuradas (representou cerca de 5% das vendas da coleção o ano passado, numa coleção de 80 sardinhas, segundo divulgou a marca).