Afinadores de piano: os preparadores de recitais

Pedro Agostinho, 45 anos, cresceu à volta de cravelhas , cepos, martelos, forquilhas e tampos harmónicos. Soube desde novo que este seria o seu trabalho para a vida. (Fotografia Pedro Rocha/Global Imagens)

Sofia Gomes e Pedro Agostinho são afinadores de pianos, instrumento em que se debruçam para escrever uma poesia recitada por outros. Sofia é a única mulher nesta profissão, na qual começou por impulso. Pedro transporta o legado de um antigo e conhecido técnico de pianos.

Texto de Catarina Reis

No cimo de uma escadaria do Palacete Ramalhão, em Sintra, ouvem-se notas soltas. Um dó duro ou um lá metalizado. Não é música, mas sim um piano a ganhar forma nas mãos de Sofia Gomes, de 30 anos, a única mulher afinadora de pianos do país. Está sentada em frente a um piano de cauda preto, cuja mecânica está nua e na qual pousa o seu estojo de ferragens. Uma mão no teclado, onde experimenta sons, outra na chave de afinação – uma ferramenta pesada de cerca de dois palmos. Numa ponta deste objeto, a mão de Sofia, a exercer força para o girar. Na outra, o encaixe perfeito nas cravelhas, pinos metálicos onde estão presas as cordas do piano e a partir de onde um afinador regula o timbre do instrumento.

Um trabalho que pode demorar entre uma e duas horas. Ainda são poucos – pouco mais de 15, dizem os profissionais -, mas suficientes para o mercado português atual.

Começou tarde, já passava dos 20 anos, a mesma idade com que tinha iniciado as aulas de piano. Licenciou-se em Artes em 2009, nas Caldas da Rainha, por um “impulso natural para o desenho, pintura e escultura”, mas terminou o curso num “processo de dúvida”. “Porque é extremamente difícil trazer-nos algum retorno”, disse, referindo-se ao mercado laboral. Acabou na afinação, numa profissão que escolheu da noite para o dia.

Sofia Gomes de 30 anos é a única mulher afinadora de pianos em Portugal. Atualmente, gere uma oficina de pianos em Aveiro, embora trabalhe maioritariamente em Lisboa, onde angariou mais clientes. (Fotografia Álvaro Isidoro/Global Imagens).

“O piano era um mistério para mim”, além de todos os outros instrumentos, conta. A relação de um pianista com um piano, “muito distante”, inquietava-a. “Nem que seja pelo facto de ser um instrumento estanque, que eles próprios não podem transportar. E também não são eles que o afinam. Chegam para tocar e o instrumento já está preparado.”

O enigma entre o artista e o instrumento impulsionou-a a perceber o que vinha dali. Mas era uma vontade “inconsciente” até ao dia em que assistiu a um concerto na Semana Internacional de Piano de Óbidos, em 2011. Durante um intervalo, o pianista Paul Badura-Skoda abre o seu piano para o afinar ele mesmo.

“Estranhamente”, visto que os pianistas não costumam dominar a afinação. Parece impossível, mas pensou imediatamente: “Então, e se este for o meu caminho?” Mesmo sem saber o que ser afinador implicava. Mesmo sem conhecer sequer a complexidade mecânica de um piano. Sofia teria de começar do zero.

O salto para uma carreira foi à rapidez de um fá. Agarrou o contacto de algumas pessoas ligadas à área e explicou a sua vontade em tornar-se afinadora de pianos. Dali, chegou a Fernando Rosado, um especialista em afinação, que há muito já “queria formar uma mulher”. Aceitou fazer dela sua aprendiza. Só há cerca de um ano abandonou a oficina para se lançar de forma independente.
Atualmente, gere uma oficina de pianos em Aveiro, embora trabalhe maioritariamente em Lisboa, onde angariou mais clientes. Ainda assim, garante que procura deslocalizar-se, ir mais para o interior do país, onde os afinadores de pianos são mais escassos ou mesmo nenhuns.

Aprendiz aos 9 anos, veterano aos 20

As mesmas notas desleixadas e repetidas ecoam numa loja da Avenida da República, em Lisboa. Em frente a um outro piano, desta vez vertical, está Pedro Agostinho, de 45 anos, profissional de afinação e restauração de pianos desde os 16. Todos os dias vai saltando entre esta loja de instrumentos, a Euromúsica, e a sua oficina em Algés.

Ao contrário do que aconteceu com Sofia, Pedro soube desde tenra idade que este seria o seu trabalho para a vida. Por ser filho de um técnico de pianos – respeitado na área e formador de vários aprendizes que são hoje profissionais -, aos 9 anos já passava horas a limpar cordas enferrujadas destes instrumentos. Desde então que Pedro não largou a sua chave de afinação. Faz aquilo que um pianista “não consegue”. Porque quem toca “conhece muito bem o seu piano, mas é o afinador que lhe dá o melhor do seu piano”.

Tudo o que sabe, Pedro herdou dos anos de profissão do pai, que levava as suas pequenas e grandes ferramentas para casa. Pedro Agostinho cresceu à volta de cravelhas, cepos, martelos, forquilhas e tampos harmónicos, entre a sujidade típica de peças que esperam uma nova vida. Aos fins de semana, acompanhava o pai a casa dos clientes. Muitos dos quais herdou entretanto. “Os filhos e netos destas pessoas procuram-me hoje em dia.

Decidiu que iria fazer desta a sua profissão também. Terminado o 9.º ano, foi “bater à porta do Valentim de Carvalho”. Começou como técnico e não afinador. Mas por volta dos 18 anos, numa altura em que a oficina se dá conta de que “havia falta de afinadores em Portugal” – “uns cinco bons, no máximo” – o pai propôs à administração que o afinador Fernando Gomes ensinasse ao filho a sua arte. “Comecei por acompanhá-lo durante um ano, a apreciar, a aprender e a absorver. Depois é que veio a prática”, conta. Pouco depois, já nos seus 20 anos, dominava esta arte. Por três anos, manteve-se na mesma empresa, mas depois acabou por seguir para a oficina do pai.

Não se sabe ao certo quantos afinadores há atualmente no país. Pedro lança um número pouco acima dos 15. Desde a altura em que via o pai trabalhar, os pianos como os conhecia não mudaram, mas quase tudo é diferente nesta profissão. Na altura, “uns eram afinadores de pianos, outros mecânicos de pianos”. Ou se era um, ou se era outro. Atualmente, “grande parte dos afinadores em Portugal também são técnicos”. E o trabalho é muito menos moroso do que antigamente, devido às técnicas e às ferramentas entretanto criadas.

Tendo tido como progenitor um formador nato de profissionais, confessa que muitas vezes é questionado sobre a sua abertura para também ele se dedicar a ensinar. Diz estar focado na aprendizagem do filho, que espera que um dia seja como ele, para continuar um legado que nasceu naquela travessa lisboeta do Bairro Alto.


 

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