A vida em clausura dos monges da Cartuxa relatada em BD

Os quatro monges cartuxos de Évora mudam-se no final do mês para Barcelona. Viveram toda a vida em silêncio, mas gostaram das cartas gráficas que Francisco Sousa Lobo lhes endereçou no duplo livro Deserto/Nuvem. Provavelmente levam o livro na sua derradeira viagem.

Texto de Marina Almeida

Estão velhos os quatro monges cartuxos que vivem em clausura e silêncio no Convento da Cartuxa Scala Coeli (Escada do Céu), em Évora. O mais novo tem 82 anos, o mais velho 92. Por isso, vão ser transferidos para Barcelona, Espanha, fechando o ciclo no único mosteiro contemplativo masculino de Portugal. Francisco Sousa Lobo chegou a temer que o convento fechasse, e dedicou-se a entender aquele modo de vida, para o documentar. Para isso, correspondeu-se com o prior dos monges, o padre Antão. Dessa troca de correspondência, nasceu o livro Nuvem.

“A Nuvem demorou dois anos, porque precisei de rever o argumento, só por isso, estive para aí um ano a pensar nos porquês de os cartuxos não terem gostado da primeira versão”, revela ao DN.

As cartas trocadas entre ambos ficam para o leitor (aparentemente) sem resposta – “sei que não seria cartusiano da sua parte andar cá a responder, a escrever cartas, e a publicá-las”, lê-se. Mas Francisco Sousa Lobo, arquiteto, autor de banda desenhada, atualmente a viver em Londres onde é professor, recebeu-as. Foi dessa troca de ideias que nasceu a forma final do livro. Chegou a fazer uma primeira versão, de que os monges não gostaram. “A Nuvem demorou dois anos, porque precisei de rever o argumento, só por isso, estive para aí um ano a pensar nos porquês de os cartuxos não terem gostado da primeira versão”, revela ao DN. Era pare ele importante retratar de forma fiel aquele modo de vida em risco: “queria refletir a vida daquelas pessoas naquele ambiente.”

O convento da Cartuxa esteve aberto ao público na passada terça-feira. (Orlando Almeida / Global Imagens)

O interesse do arquiteto pelos monges da Cartuxa vem da infância. Uma tia tem um terreno próximo do convento, e Francisco sempre teve curiosidade em saber como se vivia dentro daquelas paredes. Aos 18 anos, visitou pela primeira vez o lugar. “Estava com medo que eles fossem uns bichos-do-mato, mas não. Trataram-me bem. Eu era um jovem a estudar arquitetura. É um bocado por aí, este interesse por um modo de vida que causa perplexidade mesmo aos católicos”. Voltou mais tarde por uma semana e meia de recolhimento, e dessa experiência intensa nasceu o livro irmão de Nuvem, Deserto. “É um um livro mais jornalístico, de uma semana e meia passada lá”, conta.

Editado pela Chili com Carne, Deserto/Nuvem ganhou o prémio de melhor álbum português do Amadora BD de 2018. Está para já apenas disponível em português. É um documento da vida em clausura em Portugal. Desde o século XI que os monges cartuxos têm presença em Portugal. O grupo que agora vai sair do Scala Coeli vive ali desde 1960. São três espanhóis – padre Antão Lopez, de 85 anos, padre Isidoro Maria, de 92 e padre José Maria de 91 – e um português, o padre António Maria (irmão de José), de 82 anos. Estes homens vivem em silêncio e em recolhimento. Dedicam-se à oração e ao trabalho. Alimentam-se uma vez por dia, numa refeição onde não entra carne, apenas laticínios, vegetais e peixe. Às sextas-feiras alimentam-se de pão e água. Viam os familiares duas vezes por ano. “Interessa-me o tipo de vida radical, deixar o mínimo de marcas negativas no mundo. É uma vida de ascese e oração que causa perplexidade. Causa perplexidade só pela diferença, não pela essência. Na essência víamos muita perplexidade em muita coisa, se olhássemos bem. Pessoas que fazem sacrifícios no dia-a-dia sem serem questionados”, refere o autor.

As celas do Convento da Cartuxa “são muito grandes e têm espaço para trabalhar, estudar, e dormir. É um mini-convento dentro de cada cela, são uma espécie de moradias geminadas com um pátio entre elas”, descreve-nos o arquiteto. Numa das cartas de Nuvem, o autor descreve toda a planta do convento. “Caro monge cartuxo, desculpe dizer-lhe mas o seu convento é enorme. É enorme quando o sol descreve sombras barrocas na cal branca, como diz. Mas é enorme porque a vida cartusiana assim o dita.”

A planta desenhada do enorme convento em que cada cela é um “mini convento”. Créditos Francisco Sousa Lobo.

Os monges, assegura, aprovaram do resultado final. “Gostaram muito do lado gráfico, e de como o argumento tinha evoluído”, diz Francisco Sousa Lobo. Soube-o pelo Padre Antão, que lhe deu um feedback positivo, que era para si muito importante, admite; “sim, era importante que eles percebessem e gostassem do livro, só por uma questão de respeito humano, nada mais.”

O autor de BD acredita que os livros – que remeteu a cada um dos quatro religiosos com uma nota pessoal – vão seguir viagem com os monges cartuxos para Barcelona, no final do mês: “provavelmente”.

O trabalho do arquiteto e autor de BD esteve em destaque na última edição do Amadora BD. (Gustavo Bom/Global Imagens/ Global Imagens )

Depois chegam novos inquilinos ao local. O Arcebispo de Évora revelou esta semana que o Convento da Cartuxa Scala Coeli vai ser ocupado por monjas do Instituto das Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará. Francisco Senra Coelho disse desconhecer ainda o número de religiosas que se vai instalar no local e que será necessário realizar algumas obras no edifício. Esta semana, o local abriu pela primeira vez as portas à comunidade, assinalando o fim da clausura dos monges, numa celebração que levou centenas de pessoas ao Convento da Cartuxa.

Propriedade da Fundação Eugénio de Almeida, o mosteiro foi reconstruído em 1948, por Vasco Maria Eugénio de Almeida, que o devolveu à Ordem Cartusiana, a qual o reabriu passados 12 anos, de acordo com o modo de vida dos cartuxos, feito de “silêncio, oração e absoluta entrega a Deus”. A Ordem dos Cartuxos foi fundada por São Bruno no século XI. A instauração desta ordem em Portugal deveu-se a D. Teotónio de Bragança (1530-1602), sendo o Convento da Cartuxa de Évora dedicado à Virgem Maria, sob a denominação Scala Coeli, a Escada do Céu.

Os quatro monges estavam em silêncio no Convento da Cartuxa desde 1960.(Orlando Almeida / Global Imagens)

Nas traseiras do convento, situa-se a Quinta de Valbom, uma das vinhas que dá origem aos vinhos da Fundação Eugénio de Almeida. Por vezes, aos domingos, era possível ver os monges em momentos de lazer. Nas caves do mosteiro, estagiam alguns vinhos. A Fundação está a preparar uma exposição antológica de fotografia, sobre as últimas seis décadas do convento, retratadas pelos poucos fotógrafos que ali entraram.

Os monges cartuxos chegaram a ser 22. Hoje são apenas quatro. O padre Antão é quem faz a ponte com o mundo, recebe os jornais que o carteiro lhe leva todos os dias, e escolhe as páginas e as notícias que dá a ler aos religiosos. Disse à Renascença, que gosta de se informar por escrito, porque “pode escolher o tema e o momento”, mas com Francisco correspondeu-se por email. Admite que a despedida, a mudança, custa, muito. “Passar por uma porta e dão ter de acender a luz porque sabemos o caminho ajuda a viver”.

Uma vida em oração e recolhimento marca estes quatro homens, que deixam Évora no final do mês. (Orlando Almeida / Global Imagens)