A Fundação Ricardo Espírito Santo chegou ao futuro e ao design contemporâneo

Designer Filipe Alarcão que tem as suas peças à venda na nova loja da FRESS. (Sara Matos / Global Imagens)

Cinco designers trabalharam com mestres artesãos da FRESS e o resultado é uma linha de 12 peças de mobiliário e iluminação contemporâneas que se mostram na recém-inaugurada loja no Chiado, em Lisboa. Aos 66 anos, a instituição dá um passo em frente na continuidade das artes e ofícios tradicionais.

Texto Marina Almeida

Chama-se Manufactum e é a nova loja da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva (FRESS), localizada na Rua do Alecrim 76, no coração de Lisboa. O nome diz quase tudo: peças feitas integralmente pelas mãos dos artesãos de excelência das oficinas da instituição, localizadas no Largo das Portas do Sol. Mas a Manufactum apresenta não só os clássicos, mobiliário de época, mas também a nova linha de design contemporâneo.

A montra é dominada pelo aparador do designer francês Emmanuel Babled, que escolheu Lisboa para viver há três anos. É uma das 12 peças da nova coleção. “Prototipámos uma série de peças com Filipe Alarcão, Marco Sousa Santos, Emmanuel Babled, Sam Baron e Marre Moerel, cinco designers seleccionados para este projeto para construirmos peças inspiradas nos modelos tradicionais daquilo que são as peças de mobiliário, produzidas nas oficinas, integralmente manufacturadas” explica Conceição Amaral, administradora executiva da FRESS.

“Achámos interessante expor aqui os dois mundos com que já estamos a conviver nas oficinas, a contemporaneidade – os artistas que nos procuram, os nossos jovens que estamos a formar e saem já com um conceito mais contemporâneo – aliado às nossas técnicas mais clássicas com a tradição de mestres à antiga”.

Na inauguração da loja, que foi pequena para tantos convidados, a responsável não escondeu a satisfação com este novo e importante passo: “Abrir uma loja no Chiado foi desde há muito tempo um desígnio da fundação, porque era entrar naquilo que seria o mercado tradicional de marcas, de prestígio, de excelência daquilo que fazemos trazendo as Portas do Sol para o Chiado. Os tempos foram difíceis nos últimos anos, mas recentemente pensámos novamente o modelo comercial da fundação, e pegámos no projeto que tínhamos em curso com designers, fruto de uma parceria que fizemos com a associação Passa o Futuro.”

Para Conceição Amaral, no novo espaço estão as duas realidades: “Achámos interessante expor aqui os dois mundos com que já estamos a conviver nas oficinas, a contemporaneidade – os artistas que nos procuram, os nossos jovens que estamos a formar e saem já com um conceito mais contemporâneo – aliado às nossas técnicas mais clássicas com a tradição de mestres à antiga”.

Conceição Amaral administradora executiva da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva (Sara Matos / Global Imagens)

O designer Filipe Alarcão foi um dos que mergulhou no mundo das artes e ofícios das oficinas das Portas do Sol para trabalhar com os mestres. Deste trabalho nasceram três peças, mas seguramente é o contador que mais espelha este diálogo. “Andei muito pelo museu, pelas oficinas, tentei perceber o que podia retirar desta experiência e nas outras peças já tinha muito a ideia do que queria fazer, esta foi muito descoberta a partir das observações e das conversas que tive lá dentro. Peguei numa tipologia que é típica da fundação e já muito caída em desuso, que é o móvel de conter, o contador, para a partir daí criar um jogo de mecanismos que conseguisse transfigurar a peça. A partir dessa ideia eu pensei em fazer estas duas peles, a ideia de reversibilidade, que pode mudar completamente o objeto. Basicamente ele vira-se do avesso”, explica enquanto faz girar as portas da peça. De um lado, usa um entalhe clássico da FRESS, do outro elegantes linhas. Esta peça mutante, que se pode apresentar na versão mais clássica ou mais contemporânea, é feita em madeira de pau-santo e buxo, e é uma edição limitada de dez peças.

Para Conceição Amaral, este é um caminho para continuar com mais parcerias com mais designers, assumindo a renovação em curso na instituição: “Essencialmente é trazer para o projeto da fundação novos criadores, gente com outra formação que possa utilizar quer as técnicas, quer os materiais, e a mão-de-obra e o saber fazer. O gosto mudou e está aqui, é possível ver que as peças contemporâneas feitas de maneira tradicional, com as matérias-primas de excelência, tudo isto cruza com a missão da fundação, dar continuidade às artes e ofícios”. Um projeto que está a começar mas que, garante, já tem encomendas. A peça mais cara desta série é o aparador de Emmanuel Babled, que custa 45 mil euros.

Na Manufactum estão também à venda os livros editados pela FRESS, bem como outras peças feitas nas oficinas usando os saberes antigos, como os blocos marmoreados ou a “bijutaria” em passamanaria.

Fundada em 1952, a FRESS tem como missão a transmissão do saber fazer artesanal de excelência. Na sua vertente formativa, tem vários cursos de artes aplicadas, que conferem graus de certificação reconhecidos a nível nacional e internacional.