A Casa Pia a formar mestres relojoeiros há 125 anos

Na Casa Pia de Lisboa funciona o curso de relojoaria, único na Península Ibérica (Jorge Amaral / Global Imagens)

Curso de Técnico de Relojoaria é o único na Península Ibérica. Jovens aprendem um ofício com emprego garantido nas assistências técnicas de alta relojoaria, numa formação quase gratuita. Têm de lidar com peças minúsculas e aprender, também, a arte da paciência.

Reportagem de Marina Almeida
Fotografias de Jorge Amaral/Global Imagens

O mestre Paulo Anastácio traz no pulso um Cartier de 2001, que a mulher, também relojoeira, lhe ofereceu. “Tem uma particularidade, é um basculante. Servia para os oficiais ingleses virarem o relógio para o vidro não se partir quando jogavam polo”. Visto por um leigo, seria apenas um Cartier de mostrador retangular, numeração romana – e, seguramente, impecavelmente afinado. O relojoeiro faz então rodar a caixa do discreto relógio, mostrando o segredo à vista de todos – uma elegância. João Louro, diretor do colégio de Pina Manique da Casa Pia de Lisboa (CPL), e a professora Carla Marieta, não resistem a ver de perto a transformação no pulso do mestre Anastácio. “Fantástico”.

A cena passa despercebida aos cinco alunos do terceiro e último ano do curso de Técnico de Relojoaria. De bata branca, empoleirados nas bancadas de trabalho, dedicam-se a delicadas cirurgias noutros relógios de pulso, cujas pequenas peças e delicados mecanismos exigem toda a atenção. A concentração é uma das chaves deste curso, o mais antigo da instituição sediada em Belém e o único curso de relojoaria da Península Ibérica.

O mestre Anastácio supervisiona o trabalho dos alunos do terceiro ano do curso de relojoaria
(Jorge Amaral / Global Imagens)

“É muito fácil ficar irritado. Às vezes, as peças não estão a cooperar”, dizia-nos minutos antes, na sala do lado, Sebastião, aluno do segundo ano. Os risinhos cúmplices dos colegas (três rapazes e uma rapariga) confirmam-no. Sebastião tem 19 anos e quer seguir o ofício, calcando as pisadas familiares. Mas aqui não se aplica a máxima de que o material não tem sempre razão? A gargalhada estende-se a professores e alunos. O material tem sempre razão. Mas é minúsculo.

De olhar vivo, Major agora quer ser relojoeiro, apesar de ter entrado um pouco às cegas no curso. “Ouvi dizer que era dos melhores da Casa”

Voltemos à sala dos finalistas. Major Mendes, 21 anos, é um dos Gulliver que se debruça sobre Liliput com uma lupa suspensa na testa. Nesta aula, trabalham com relógios eletrónicos – para melhor responderem depois às necessidades do mercado. “A relojoaria eletrónica veio revolucionar a precisão, a necessidade de ter um relógio, e o preço. Felizmente, que o relógio mecânico continua a ser muito apreciado. O que está por trás em termos de capacidade para termos uma peça dessas a funcionar 24 horas por dia ininterruptamente é realmente um patamar de ascensão do Homem, que já foi alcançado há 200 anos e ainda hoje continua em prática. E quando nós descemos a Avenida da Liberdade e vemos relógios entre os 20 e um milhão de euros, que é o recorde por que foi vendido um relógio lá, da Patek Philippe, verificamos que são os relógios mecânicos que as pessoas continuam a querer, e são altamente valorizados, e belíssimos”, entusiasma-se o mestre Anastácio. É ali professor há 31 anos. Com o 9º ano acabou o curso, começou a dar aulas e continuou a formação, em engenharia eletrónica. “Fiz o meu percurso de carreira como formador, fui adquirindo capacidades tecnológicas e pedagógicas. Fui tentando manter a escola viva, pela singularidade que assume na Casa Pia, mas também pelo país. Não precisamos de um país com muitas escolas de relojoaria, mas precisamos de uma boa escola de relojoaria.”

De olhar vivo, Major agora quer ser relojoeiro, apesar de ter entrado um pouco às cegas no curso. “Ouvi dizer que era dos melhores da Casa”. Hoje, já a estagiar na assistência técnica de uma marca, acredita que tem futuro: “a gente aprende aqui muito bem”. Pensa ficar um ano em Portugal e depois ir para a Suíça, o grande tic tac mundial. Perguntamos-lhe pelo seu relógio de sonho. Pensa dois segundos e responde: “um Franck Muller… eu não posso explicar em linguagem técnica que não ia entender, mas a máquina daquele relógio mexe de várias formas. Tem data, a data lunar, tem lá tudo. É a marca de relógios mais complicada do mundo.” Major parece gostar da complexidade. E de descomplicar. Uma das dificuldades que mais sentiu foi o estudo das peças, algumas delas microscópicas. E escolheu para o tema da sua Prova de Aptidão Profissional (conhecidas por PAP) fazer um modelo ampliado, à escala, completamente calculado e desenhado por si, para os alunos que vierem a seguir “verem o mecanismo de forma mais fácil ”. A peça em tons dourados ganha forma aos poucos nas impressoras 3D do recentíssimo FabLab da CPL (ainda não cumpriu um ano).

Major Mendes está no último ano do curso. Quando terminar quer ficar um ano por Portugal e depois ir trabalhar para a Suíça
(Jorge Amaral / Global Imagens)

Umas mesas ao lado, Manuel Martins desmonta e prepara-se para lavar (eliminar as impurezas e óleos) um relógio. No pulso, um Citizen que era do avô: “não tem muito valor assim, mas para mim tem muito valor”. Está a estagiar na Rolex na Avenida da Liberdade. “É outro mundo, aprendemos outras coisas, que cada marca é uma marca, tem peças e calibres diferentes”. João Alves, 20 anos, também está na aula, mas cinco horas das suas semanas são passadas no Instituto Hidrográfico da Marinha, onde está a restaurar um barógrafo, um instrumento que mede a pressão da Terra. “Estou a gostar muito porque eles têm lá tipos diferentes de relógios. Têm marógrafos e termógrafos que por dentro têm um relógio”. Quer ser relojoeiro, seguindo o exemplo do irmão, também aluno da CPL. “Vi que ele, quando acabou o curso, arranjou logo trabalho e resolvi vir também”.

A professora Carla Marieta anda por perto. Já deu a aula de tecnologia ao segundo ano (e pediu-lhes um trabalho sobre a evolução dos relógios de quartzo) e acompanha-os nas aulas práticas, na preparação das PAP. Veio da micromecânica, a sua área de formação, para a relojoaria, em 1997. “Apaixonei-me. É preciso amar esta área. É um bocadinho fazer uma viagem na história. Quando vemos relógios como já tivemos aqui relógios do Museu de Arte Antiga para fazer o restauro, é fazer uma viagem ao passado…”

“É um curso que tem um índice de dificuldade acentuado, requer uma precisão muito fina, não é um daqueles cursos da moda, como o Desporto ou Restauração. Na Relojoaria, a procura é relativamente diminuta, mas a empregabilidade é fantástica. Ficam todos colocados”, garante João Louro.

Esta é uma área onde não faltam as saídas profissionais, garantem os responsáveis do curso de relojoaria mais antigo do país. Foi criado em 1894 por Augusto Justiniano de Araújo e chega aos dias de hoje, após o escândalo de pedofilia que abalou a instituição nos anos 2000. “É um curso que tem um índice de dificuldade acentuado, requer uma precisão muito fina, não é um daqueles cursos da moda, como o Desporto ou Restauração. Na Relojoaria, a procura é relativamente diminuta, mas a empregabilidade é fantástica. Ficam todos colocados”, garante João Louro. Fátima Valente, uma das diretoras técnicas do colégio de Pina Manique, precisa que o curso este ano tem 32 alunos, pelo que está a funcionar aquém do limite das capacidades, com turmas pequenas. A capacidade máxima são 15 alunos por ano, 45 nos três anos, explica o diretor João Louro.

O professor Daniel Manteigas ensina a turma a desmontar o primeiro relógio, o Reguladora CP28 (Jorge Amaral / Global Imagens)

“Guilherme, ajuda a senhora”, diz o professor Daniel Manteigas. Estamos agora na aula do primeiro ano, em que a turma está a desmontar o seu primeiro relógio. Ouvem-se as moscas no ar. Guilherme sorri, tímido, e enumera os instrumentos obrigatórios na bancada de trabalho de um relojoeiro. “Alicate de pontas chatas, palito, martelo, lapiseira, borracha, chave inglesa, duas pinças”. E o mestre por momentos parece transformar a curiosidade da jornalista numa prova oral. “João, ajuda lá aqui o teu colega”. Risos… “Pincel para limpar, chave de dar corda…” Guilherme é filho de pai francês e mãe portuguesa e cresceu no mundo dos relógios, pois a família tem uma loja na Suíça. Mais do que as peças e os instrumentos, a sua dificuldade são as palavras em português – embora ganhando vantagem no francês, língua franca para o mundo da relojoaria.

Está tudo impecavelmente alinhado nos tabuleiros de cada um dos nove alunos. Deixemo-los trabalhar. “Eles nunca mexeram em nada tão delicado, há uma abordagem do maior para o menor. O primeiro relógio é o Reguladora CP28, é a primeira abordagem que eles fazem. É muito simples, têm de perceber onde são as peças, imaginar que é um puzzle e temos de o montar. E não podem sobrar peças ou não vai mesmo dar certo!”, diz o bem-disposto mestre Anastácio.

Entre os noviços que mal respiram para cima da bancada está Waldik Rocha, de 23 anos. Após duas tentativas goradas de entrar no curso, ali está ele de volta do relógio por desmontar. Ao seu lado está um desenho a lápis do relógio e da localização das peças. Ele está a gostar do curso, mas anda às cabeçadas com o desenho. O mestre Anastácio desvaloriza: não é preciso ser um artista para se ser bem sucedido na profissão. “O importante é eles poderem interpretar o desenho. O desenho é para eles, para saberem o sítio das peças”. Numa fase mais avançada, vão ter de desenhar peças à escala, à mão ou em AUTOCAD, para depois serem reproduzidas – o que é muito importante no caso de relógios antigos, para os quais já não há peças. Ou nos relógios que são reparados e levam peças novas, que têm de ser desgastadas para corresponder às antigas – como conta um ex-aluno da Casa Pia, já com mais de 30 anos de profissão.

Serafim Desidério, relojoeiro e antigo aluno do curso de relojoaria da Casa Pia de Lisboa na sua loja da Rua de São Julião em Lisboa. (Jorge Amaral / Global Imagens)

No pulso de Serafim Desidério está um relógio invulgar. É um America, modelo dos anos 20 da Vacheron Constantin, marca de que foi técnico durante onze anos. “É diferente dos outros, foi feito para a condução. Quando estamos a conduzir, as horas ficam direitas”, conta, simulando a colocação das mãos num volante imaginário. O relojoeiro senta-se nos bastidores da loja que abriu na baixa de Lisboa em 2010, depois de o grupo de alta relojoaria para o qual trabalhava ter fechado a representação em Portugal. Aos 52 anos, conta-nos o seu olhar sobre a arte que abraçou ainda jovem e interno da Casa Pia, depois de ele e a irmã terem sido abandonados pelos pais – “tinha perfil para a música, mas o psicólogo aconselhou relojoaria. Mais tarde viemos a concluir que era o melhor curso”. Prosseguiu depois os estudos em Gestão de Marketing, trabalhou em marcas de alta relojoaria, até abrir a RPN, atualmente na Rua de São Julião, em os relógios antigos, do avô, do pai, que estão lá metidos na gaveta. É preciso alguém para os restaurar. Depois percebi que não podia só reparar relógios e criei o segmento do relógio usado – comprar, reparar, vender“. Até hoje. Começou por pôr os seus próprios relógios à venda para lançar o negócio, e ainda põe em prática os conhecimentos da escola.

“Quando fui trabalhar para as marcas de alta relojoaria, havia um certo nível em que se utilizava esta capacidade do artesão. Quando se substitui uma peça por outra nova, como as outras peças já têm um desgaste natural, a que entra tem de ser ajustada, não obstante vir da fábrica e pertencer aquele calibre. Temos de usar as técnicas que aprendemos. Agora isso não se faz. Eles nunca mais praticam, é uma pena”, diz, defendendo uma ligação entre o curso e a universidade, nas engenharias, ao know how “ótimo” do curso da Casa Pia. Isso permitiria aos novos relojoeiros portugueses passarem para outro patamar, passarem das assistências técnicas para a construção, como fazem os suíços, defende.

Dann trabalha num atelier próprio na Suíça e tem o sonho de fazer o seu próprio relógio (DR)

A experiência de Dann Phimphrachanh confirma-o. Tem 34 anos e dupla nacionalidade (portuguesa e francesa) – o seu peculiar nome vem da família da mãe, natural do Laos. Terminou o curso da Casa Pia em 2004, ainda tentou entrar na Universidade em Lisboa mas desistiu e em 2007 foi trabalhar para a Suíça. Passou por marcas como a Parmigiani, a Greubel Forsey, a Bvulgari ou a Jaeger-LeCoultre. Foram anos em assistências técnicas na alta relojoaria, a lidar com “peças de exceção”, em que aprendeu “o funcionamento dos mecanismos mais conceituados no mundo da relojoaria”. Mas isso não lhe chegava e Dann nunca deixou de procurar fazer formação. Entre elas um exigente curso de construtor em micro-mecânica relojoeira, que durou três anos e deixou metade dos candidatos pelo caminho. “Fui o único relojoeiro a conseguir o diploma, os cinco colegas com quem partilhava as aulas vinham do curso de desenho”, escreve, orgulhoso. Há pouco mais de um ano estabeleceu-se por conta própria: tem o sonho de fazer um relógio. “O objectivo era de voltar às bases, e fazer um relógio com o espírito dos primeiros relojoeiros que criavam mecanismos pela necessidade de contar o tempo. Meti algumas economias de lado, e em 2018 demiti-me para tornar-me independente e trabalhar neste projecto a 100%”, conta.

Dann tem um único relógio seu, que guarda na gaveta há sete anos. “É um cronógrafo da Parmigiani, que foi totalmente montado por mim. Vendia-se em 2010 nas lojas da marca por volta dos 37 mil francos suíços [cerca de 32 mil euros], se bem me lembro. Ele funciona e está em ótimo estado, mas desde que o comprei, deixei de o usar. Sou sensível ao facto de usar um relógio com o nome de outra pessoa no pulso. Usar um relógio não é determinante para saber as horas, portanto o melhor é esperar para usar um relógio da minha autoria.”

Guilherme é filho de pai francês e mãe portuguesa e cresceu no mundo dos relógios, pois a família tem uma loja na Suíça (Jorge Amaral / Global Imagens)

Formação especializada por 15 euros

Qualquer pessoa pode ingressar no curso de Técnico de Relojoaria da Casa Pia de Lisboa. As provas de acesso incluem uma prova de motricidade de fina, para o mestre Anastácio avaliar se os candidatos têm apetência para manusear as peças necessárias para as oficinas, e uma entrevista com assistentes sociais e psicólogas. A partir do próximo ano, os alunos deixam de pagar transportes e livros ou alimentação, pelo que o único custo serão os 15 euros da inscrição – noutras escolas da Europa, a formação em relojoaria pode ascender às centenas ou mesmo milhares de euros. No final dos três anos deste curso profissional, os alunos têm equivalência ao 12º ano, podendo seguir para a universidade, se o entenderem. Ou começar logo a trabalhar. Estão contempladas 630 horas de formação em contexto de trabalho em empresas como a Rolex, Patek Phillipe, Omega/Tissot, Longines ou Seiko, ourivesarias ou o Instituto Hidrográfico, explica o mestre Anastácio. Em muitas das lojas da Avenida da Liberdade, como a Boutique dos Relógios, estão jovens formados na CPL no apoio técnico, igualmente no El Corte Inglés. “O que a indústria pede são relojoeiros para assistência técnica e assistência à venda”, sublinha.


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