Silêncio é de ouro: o luxo de acabar com os ruídos dentro de casa

As casas têm vindo a ganhar vida e estão hoje mais ruidosas. E não falamos apenas dos vizinhos. Há quem já ajuste a temperatura do quarto, abra ou feche estores, ligue ou desligue a TV, com apenas um comando de voz.

Texto Patrícia Tadeia

Vida, mesmo que tecnológica, é sinal de maior ruído. Por isso, há quem contrate consultores acústicos para diminuir o barulho lá de casa… seja pelos sons dos «gadgets» no interior das residências inteligentes, seja pela ação dos vizinhos. E esse orçamento e resolução podem custar milhares de euros.

Falemos dos vizinhos. Em casos de «ruído de impacto associado a passos ou arrastar de cadeiras no andar sobrejacente, a análise das medidas adequadas de atenuação sonora poderá situar-se entre 300 e 500 euros. Em casos que envolvam outras reclamações, como ruído aéreo de vozes, televisão ou ruído de equipamentos provenientes de outras frações ou espaços comuns do edifício, este valor poderá variar entre 300 e 1.000 euros», avança ao DN Ócio Luís Santos Lopes da Acustiprojecto, gabinete de engenharia acústica com sede em Lisboa.

Este é um valor que vai aumentando consoante as condicionantes. Tiago Ferreira, sócio-gerente da LogAcústica, empresa de Vila Nova de Gaia, diz ao DN Ócio que «dificilmente se isola uma habitação inteira, apenas os compartimentos principais e mesmo nestes é necessário perceber os elementos construtivos a reforçar (podem ser paredes, pavimento e/ou teto)». «Para o isolamento integral de um compartimento, em que seja necessário intervir nos elementos todos, o valor máximo não deverá ultrapassar os 8.000 € (+IVA) – mas claro que varia muito com a área do compartimento», revela Tiago.

«Em casos que envolvam outras reclamações, como ruído aéreo de vozes, televisão ou ruído de equipamentos provenientes de outras frações ou espaços comuns do edifício, este valor poderá variar entre 300 e 1.000 euros.»

Ambos os especialistas garantem que estes valores são de facto elevados quando a habitação se encontra concluída. «Aquando da construção dos edifícios o sobrecusto para garantir um isolamento acústico adequado é irrisório e tipicamente não se implementa apenas por desconhecimento técnico dos diversos intervenientes envolvidos», diz Tiago. A melhor fase para se proceder a estas intervenções é, assim, aquando do «projeto inicial do edifício ou da sua reabilitação», concorda Luís.

Ainda assim, Tiago confirma que tem recebido muitos pedidos para este tipo de trabalhos: «Sem dúvida, até porque a qualidade acústica dos edifícios em Portugal é muito má, e continuará a ser enquanto a legislação em vigor não for revista. Percebe-se que o consumidor do produto habitação se encontra hoje mais consciente dos seus direitos e reclama com muito mais frequência.»

«Ao nível de isolamento sonoro, e no caso de edifícios já em utilização, as soluções mais frequentes são os reforços em gesso cartonado, quer ao nível das paredes quer ao nível de tetos falsos», garante o responsável da LogAcústica.

«a qualidade acústica dos edifícios em Portugal é muito má, e continuará a ser enquanto a legislação em vigor não for revista.»

Mas o engenheiro especialista em Acústica vai mais longe. «Não se trata apenas dos comandos de voz, mas por exemplo a utilização simultânea de dispositivos de entretenimento em vários compartimentos (entre outros aspetos relacionados com as novas tecnologias)», enumera Tiago Ferreira. «Nesses casos as exigências de conforto acústico já não são apenas entre habitações distintas mas também no interior da própria habitação», explica ainda. Mas que soluções podemos então encontrar? «Neste particular já é muito relevante também a questão da absorção sonora (painéis acústicos de absorção de som para as paredes e tetos, cortinas, e outro tipo de revestimentos)», avança o sócio-gerente da LogAcústica.

Mas há mais fatores prejudicam o conforto acústico: «o minimalismo em termos de decoração. Ao termos pouco mobiliário e objetos de decoração no interior das habitações qualquer ruído produzido no interior acaba por ser ‘amplificado’», diz Tiago Ferreira.

Se olharmos as divisões individualmente, a maior dor de cabeça é mesmo a cozinha. Além de ter eletrodomésticos barulhentos, a superfície dos mesmos – tratada para ser mais elegante – reflete os sons em vez de os absorver.

E por falar em cozinha, lembremo-nos da Alexa da Amazon, o Google Home, ou a Siri, intercomunicadores com inteligência artificial e diversas funcionalidades controladas pela voz. Ou seja, em vez de pressionar botões, é necessário ativar comandos com a voz, mais uma vez aumentando o ruído em casa.